domingo, 27 de novembro de 2011

Sobre caras sérios

Nós homens nunca entendemos direito certas angústias das mulheres. Muitas vezes até achamos algumas situações engraçadas. Em partes, agimos assim por vermos o mundo de forma mais prática. Em partes, por não termos a sensibilidade aguçada que possuem, de origem na própria composição biológica, com influências que vão desde questões hormonais até resquícios do rastro evolutivo. Na usina de emoções do organismo feminino, a angústia é só um destes produtos, o que seria normal se não fosse pelo seu forte e recente crescimento.    
Em conversas com amigas solteiras, enroladas, casadas ou divorciadas, percebo que o nível desta angústia não para de crescer. Só que é uma angústia diferente, uma angústia com o mundo, justamente o mundo que elas conquistaram de fato e direito. E o principal lamento destas mulheres  é que o epicentro da aflição está justamente naquilo que sempre foi o seu maior orgulho: o relógio biológico, que a  partir dos  25 anos, lentamente começa a ganhar status de inimigo íntimo, transformando o sonho de ser mãe em ânsia de encontrar aquele que possa ser o pai para o filho que ela quer ter.    
Só no meu convívio, conto rapidamente mais de duas dezenas de amigas que falam aos quatro ventos ou escondem a sete chaves sua maior dúvida:  será que vou ser mãe? Uma delas, dia destes, com 31 anos, chegou a usar a expressão prazo de validade para definir o período que ainda lhe resta para uma gestação segura e saudável. Falou das noites de insônia, pensando que sua ampulheta reprodutiva se encaminha para os fragmentos finais e ela ainda nem tem previsão de iniciar o roteiro necessário a ser enfrentado: conhecer alguém, namorar, adquirir confiança, talvez morar junto, decidir em consenso e fazer um planejamento financeiro, para só então realizar o sonho da gravidez. Isto tudo em meio ao ápice da carreira profissional, num mundo mais promíscuo, servo da estética, com expectativa da família.
Sinceramente, fico consternado quando escuto este tipo de história, me pedindo uma luz pela visão masculina sobre o assunto, a fim de tentar entender o que nós homens pensamos a respeito de paternidade ou mesmo de um relacionamento sério. Acabo indo pelo caminho de que não há receita e a melhor maneira de enfrentar o problema é deixar o mundo girar , mas principalmente não mentir para si mesma, vivendo falsas realidades numa idealização, que nada mais é do que uma visão deturpada da realidade. Por ansiedade, carência ou necessidade ou mesmo amor enxergam como homens sérios aqueles que não são, vislumbrando virtudes onde não existem e permitindo que um sorriso ou um torpedo de celular desencadeiem uma série de projeções sentimentais, que quase sempre desmoronam em dias ou semanas, acrescentando à angústia a frustração. A partir daí surgem as autoanálises cruéis, muitas vezes perdendo o respeito pela própria personalidade.
Eu, particularmente, achava esta situação mais melancólica quando escutava a maioria das mulheres dizendo: agora eu quero um cara sério. Sério, acima de tudo. Ser sério basta. Ser sério é o ápice. O cara sério, no caso, se traduz naquele que demonstre uma intenção consistente de um relacionamento. Ou seja, o senso de seleção diminui. Basta ser sério. Querer namorar é o bastante. O correto não seria a busca por alguém com quem tivessem o mínimo de afinidade? Passei a concordar que a resposta é não. Porque, ao que me parece, na visão feminina, só o homem sério  é que vai lhes dar um filho. Se ele vai ser o marido para toda a vida, isto é conseqüência. A prioridade da natureza feminina é ser mãe. Se for com casamento, melhor, mas deixou de ser necessário. Por instinto, as mulheres são mães. A sociedade é que as fez esposas. E esta busca feminina por homens, acima de tudo, sérios, reflete-se imediatamente do nosso lado masculino. A retração a um relacionamento aumenta, muitas vezes, por incertezas sentimentais a respeito de um vínculo mais duradouro, fuga da simples condição de reprodutor ou mesmo por metas pessoais ligadas ao mundo profissional, cuja condição de pai implicaria em interrupção ou postergação.
Acho que esta dissonância de interesses sentimentais entre homens e mulheres é um dos preços que a nossa geração paga por situar-se no núcleo cronológico dum período de transição acelerada no comportamento da humanidade. E a fatia maior desta conta recai sim sobre as  mulheres. Somos todos uma espécie de cobaia para novos modelos de instituições básicas da sociedade, como a própria família, que sempre foi o alicerce da evolução humana. Possivelmente, não será a nossa geração que definirá este modelo, deixando a missão para os nossos filhos ou netos. Fomos criança, plantando os sonhos e valores de nossos pais e agora não temos a certeza dos sonhos e valores a semearmos para os filhos que temos e teremos.    

4 comentários:

  1. Um mundo agitado, um mundo concorrido, um mundo bizarro. Enfim um mundo profissional, tão profissional que já estamos profissionalizando o ato de ser mãe ou pai. Mas esse é o ônus da liberdade que as mulheres atingiram, merecidamente, nos últimos anos.
    Abs...

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  2. Exatamente, Alexandre!!! Exatamente!!! Abs!!!

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