domingo, 25 de dezembro de 2011

Meu nome é Pâncreas


Ela não era linda. Era lindíssima. Mais ainda. Era lindíssima, inteligente, bem humorada e espirituosa. Tinha todos os homens a seus pés. Todos, sem exceção. Com o tempo, passou a ver os homens como brinquedos. Cansada da mesmice, criou o hábito de testar os seus pretendentes com frases sem sentido e respostas esdrúxulas.  Além de se divertir com as situações, era uma espécie de senso de seleção. Só se envolvia com aqueles de raciocínio rápido. Tornou-se quase um fetiche. Num pub, ela fica junto do bar e mais uma vítima se aproxima:
- Oi!
- Oi!
- Posso saber seu nome?
- Ilhota de Langerhams
- Hummm...satisfação, meu nome é Pâncreas.
Ela não podia acreditar. Ele sabia o que era uma Ilhota de Langerhams.
- É?
E o diálogo continuou:
- Posso te chamar de Insulina?
- Só se eu te chamar de Glucagon!
- Taí...gostei! Parece até nome de amante latino: Don Glucagon de Marco, hermano del Don Juan de Marco
 As risadas dela foram imediatas e o jogo se inverteu.
- Nossa, Pâncreas, você é muito criativo!
- Muito obrigado, Lina!
-  Lina?
-  É, de Insulina!
- Hahahaha...você é muito rápido!
-  É?
- Sim...metabolismo verbal acelerado!
-  Hahahaha...quem sabe eu sento aqui do teu lado pra gente tem uma conversa bem endócrina, hormonal, coisa e tal???
- Claro! – disse ela, se rendendo.
Depois daquela noite, eles  nunca  mais se separaram. No resto de seus dias, ele a chamaria de Lina e ela o chamaria de Gluca, pelo motivo óbvio de não chamá-lo de Cagon. Casaram, tiveram filhos, foram felizes. E a cada dia que passava, ele, particularmente, era mais feliz.  Tão feliz que sentia, por vezes, uma súbita vontade de chorar.  
E foi na primeira noite de Natal junto de Lina que Gluca entendeu de onde vinha aquele pranto aprisionado. Era um pranto diferente, um pranto de saudade feliz, um pranto de quem decifra como o mundo funciona e a vida se escreve. Ele chorou quando entendeu que quando tinha 13 anos, cada tarde que passara na biblioteca do colégio pesquisando a falta de atividade das ilhotas de langerhams, responsáveis pela produção de insulina e glucagon no Pâncreas de sua mãe, que morreria vítima de diabetes meses depois, fora um passo em direção daquele pub. 

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