sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O dia em que Jesus enganou o Papai Noel


Apresentação de fim de ano da pré-escola no principal colégio da cidade. Crianças eufóricas observam as professoras ansiosas revisarem tudo. Não há como dar errado. A peça de teatro infantil terminará e na sequência cada criança subirá ao palco. Ali, dará um abraço no Papai Noel e dirá ao microfone o que deseja ganhar no Natal.  Ao fim, a orientadora educacional da escola fará uma palestra de reflexão aos pais a respeito do materialismo evidenciado nos pedidos de brinquedos e a necessidade de mais amor e carinho por parte da família.

Começa a apresentação. Os pais choram. Termina a apresentação. Os pais seguem chorando e as professoras rezam de alívio. Só faltam os pedidos ao Papai Noel. As crianças fazem fila. A diretora começa a chamar os alunos pelo nome. Tudo perfeito até que chega a vez de Jesus. Ele caminha até o centro do palco, abraça o Papai Noel, que pergunta:

- O que Jesus vai querer de Natal?

- Eu quero que meu pai fique do bem!

Constrangimento geral. O Papai Noel tenta consertar:

- HO HO HO...olha sóóóóó....que menino especial. O Jesus não quer brinquedo. O Jesus quer que o pai dele seja MAAAAAIS do bem ainda...

Jesus se revolta com a interpretação do Papai Noel. Puxa com força a barba do velhinho para pegar o microfone. A barba é natural. O Papai Noel sente a dor e deixa escapar:

- Ai, caralho!!!

As professoras tapam o rosto de vergonha. As crianças gargalham. Alguns pais riem e outros se constrangem. Em meio ao falatório, o pai de Jesus, que por ironia se chama José, baixa a cabeça, depois de olhar para a esposa que, por ironia, se chama Maria.  

No palco, o menino Jesus pega o microfone do Papai Noel e começa a falar:

- Desculpe, Papai Noel!  Eu não sabia que a barba era de verdade!

O Papai Noel sorri constrangido. Jesus continua:

- Eu sei que o senhor só quis ser querido quando falou do meu pai. Mas eu quero sim que meu pai fique do bem.

O auditório silenciou.

- O meu pai grita com a minha mãe. Meu pai não cuida com a minha vó. Meu pai grita com as outras pessoas quando elas discutem com ele. Meu pai não dá bom dia. Meu pai não dá boa noite. Meu pai não brinca comigo. Meu pai faz coisas erradas. Meu pai não pede desculpas quando faz coisas erradas. Meu pai não diz obrigado.

Silêncio celestial no auditório. Jesus continuou:

- Meu pai não diz por favor. Meu pai xinga a funcionária lá da loja. Meu pai xinga os outros na rua. Meu pai até já buzinou pra uma velinha na faixa de segurança. Meu pai diz “vai se fudê” pro flanelinha. Meu pai ri do nosso cachorro preso na corrente. Meu pai engana as pessoas com o troco. Meu pai diz que tem vontade de matar as pessoas com a arma que ele tem no armário. Meu pai joga lixo na rua. Meu pai só pensa nele.

O Papai Noel começa a chorar.  José, com as mãos aparando a cabeça, olha pro chão. Abaixo dele, uma pequena poça de lágrimas. Maria o abraça. O auditório é a imagem de um templo. Jesus segue falando: 

- O meu pai não é querido...mas eu amo o meu pai. Eu amo ele um montão. E eu sei que estas coisas que o meu pai faz, todas as pessoas grandes fazem. Os meus coleguinhas me contam que os pais deles também não são do bem. Até as mães não são do bem. Sabe, Papai Noel, acho que todas as pessoas grandes não são do bem. Por isto, Papai Noel, eu quero pedir pra que o meu pai fique do bem, porque eu sei que fazer todo mundo ficar do bem dá muito trabalho. Mas se o meu pai ficar do bem, ele pode ajudar o senhor a fazer outras pessoas a ficarem do bem também e elas vão fazer outras pessoas ficarem do bem.

O Papai Noel, que sempre é do bem, apesar de dizer palavrão, abre os braços e acolhe o menino Jesus. Na platéia, todos fazem olhares assombrados como se ali naquele palco Jesus houvesse operado um milagre. José, levanta-se. Maria, na sequência. Do meio da platéia, o pai do menino grita pela primeira vez na vida:

- Te amo, Jesus!!!

Ele olha pro lado, abraça Maria.  Ela convoca a todos os presentes para uma prece coletiva, agradecendo pelo que Jesus, em nome de Deus, fizera naquela noite.

Quando Jesus, Maria e José chegam em casa, são só sorrisos. Afinal, o ano de esforço valera à pena. Depois que o menino adormeceu, começaram a relembrar os gritos que ele dera com ela e os pedidos de  Maria, na frente de Jesus, para que o marido se tornasse “do bem”. Foram meses de encenação dos dois e a promessa da mãe de que o discurso na apresentação de fim de ano valeria uma bicicleta.

- A cena do Papai Noel chorando foi coisa de cinema! – diz José, enquanto Maria busca uma espumante para a comemoração.  

Os dois brindam a vitória. Agora é só pagar a propina para a diretora da escola, que registrara tudo em vídeo a pedido deles e esperar os pedidos de entrevista. E quando os repórteres, vendo as imagens, souberem que Jesus nasceu num dia 25 de dezembro, o fato ganhará proporções gigantescas. Tudo bem que o parto foi de cesariana, mas pra mídia, já é o suficiente. Agora já podiam começar a planejar o sequestro de Jesus na Sexta-Feira Santa e o resgate do menino amarrado numa cruz em algum cerro da região no domingo de  Páscoa. Fundar uma igreja ou um partido político não está fora de cogitação. 

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