domingo, 29 de janeiro de 2012

A angústia cobra o que a ansiedade vende


Uma amiga entrou no MSN. Pedia uma luz. Ela  não sabia o que fazer em relação à primeira crise com o namorado. Estavam juntos há pouco mais de dois meses, com direito a  jantas de família, sogra que a tratava como filha e status de relacionamento sério no Facebook com a foto do indivíduo.  Eis a crise: haviam combinado de se encontrarem numa quinta-feira à noite, na casa dos pais dele. E nada do rapaz até às 23 horas. Ela na casa dos sogros e telefonando. Os pais do rapaz, idem. Celular dele desligado. Imaginou muita coisa. Pensou em acidente, assalto, morte. Só parou de pensar quando recebeu um torpedo de uma amiga dizendo que o dito cujo estava numa danceteria da cidade com amigos solteiros. Foi lá. Chegou depois da meia-noite. Discutiram. Ela cobrou. Ele se desculpou. Ela tolerou. Queria a minha opinião.

 Óbvio. Disse que se em um mês a pessoa age assim, é melhor procurar abrigo para os tempos vindouros. Me agradeceu  e sumiu.     

Na semana seguinte, novamente me chama no MSN. Está eufórica. Diz que tem ele na mão. Que o rapaz não para de pedir desculpas, que é um fofo, que o homem arrependido sabe valorizar a mulher que tem, que tem a certeza que ele é o amor da vida dela. Senti o prenúncio da tragédia. Tentei falar nas entrelinhas algo que a pudesse colocar de volta ao chão, mas você que se prestou a ler este texto até aqui sabe que qualquer coisa que fosse falado para deixá-la de alerta seria em vão. Estava inebriada. E no caso de uma insistência, poderia até surgir algum comentário de que eu estava botando olho gordo, que não torço pela felicidade dela, que sou uma pessoa negativa, que jamais esperava isto de mim e blá blá blá.

Esta semana ela me chamou de novo no MSN.

Estava desesperada. O namorado foi trabalhar e esqueceu o MSN conectado. Bingo. Ela encontrou uma conversa aberta do rapaz com uma ex-ficante. No diálogo, ambos relembravam os bons tempos, as afinidades e se questionavam porque a história deles não dera certo. E quando a ex-ficante perguntou do namoro atual do rapaz com minha amiga, ele disse que não era nada, que era só um “namorico”, só uma pegação mais forte. Pela segunda vez ela me perguntou o que fazer?

Fui direto: disse que possuía duas respostas: a que de fato eu pensava e a que ela queria ler. Pedi que ela escolhesse.

Optou pela minha. Sugeri o rompimento, óbvio e disse que era uma história que já nascia morta. Ela disse que não tinha força. Então aconselhei que concentrasse toda a força que ainda possuísse para aguentar a humilhação, mas deixasse uma reserva para as próximas que viriam. E seguisse em frente no namoro. Ela me agradeceu ríspida e desconectou. Depois disto não falamos mais.

A história da minha amiga é um dos tipos de enredos que mais me intriga. De onde vem esta miopia emocional que confunde tolerância com covardia? Até onde vai esta dislexia afetiva que confunde teimosia com persistência? Qual a origem do daltonismo sentimental que confunde amor com sofrimento? A mim, são questões tão complexas quanto a atração das mulheres por sapatos com preço inversamente proporcional ao conforto.

Quanto a mulheres e sapatos não tenho teoria. Seria muita pretensão.  Mas em relação às emoções, me arrisco, numa metáfora econômica.

 A vida nos oferece possibilidades e nos cobra por nossas escolhas. Até aí, nada demais. Só que há a ansiedade, que é uma espécie de agiota de nossos sonhos. Ela nos vende pensamentos, devaneios, projeções, idealizações e tudo que quisermos com um preço superfaturado. E porque compramos dela? Pela promessa de entrega imediata. Nem é preciso dizer que qualquer estravagância impensada sempre vai gerar um débito. E a cobrança vem. Sempre vem. E vem com juros.
Quem cobra, neste caso, é a angústia. E a angústia não perdoa.  A angústia é o Serasa das emoções. Ela não quer saber se  comprou demais ou se a pessoa foi enganada. Comprou da ansiedade, paga pra angústia. E paga como pode. Mas vai pagar. Ah, não quer pagar? A angústia começa a tortura: aperto no peito, insegurança, vazio, até que a pessoa se dá conta de que realmente vai ter que pagar pela escolha que fez. E quanto mais espera para acertar as contas, maior o estrago. Postergar é dar de comer à angústia, porque ninguém passa o cambão na angústia. Ninguém.

Nos relacionamentos, é a mesma coisa. Pessoas não são produtos, mas aquela  na qual estamos investindo nosso tempo, energia e capital emocional também merece uma avaliação. Realmente gosto? Realmente quero? É original? Tenho referências? Quais as  consequências?  E quanto estou disposto a investir de mim mesmo para que a relação dê certo?

A vida é assim, como nas finanças. Tem estabilidade emocional? Ok, paga e segue a vida. Não tem? Huuummm...negocia, dá um jeito. Minha amiga, no caso, é destas que está disposta a investir alto pelo namoro que mantém. À angústia já hipotecou a autoestima e o amor próprio. E prevejo, sem criticar, que a coisa só vai piorar. Dívida é dívida. E talvez só se dê conta quando falir emocionalmente.

E daí, se me procurar, de novo, talvez  surja o enredo para uma nova reflexão.    

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