terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O que significa isto????


Ela não precisava passar por aquilo depois de doze anos de relação. Havia suportado muita coisa, mas aquilo era demais. Definitivamente demais para uma quarta-feira pela manhã. Perguntou:

- O que significa isto?
- Isto o quê?
- Istôôôôôôôôô!
- Me deixa! – respondeu, coagido. 
- Faz o favor de olhar pra mim? Eu tô falando contigo!
Ele olhou. Suspirou. Ficou em silêncio.
- Eu mereço e exijo uma explicação!
- Me deixa!
- Me deixa, me deixa! Nããããão deixo! Eu quero saber o que significa isto! 
Ele suspirou. Levantou-se. Foi para a sala. Ela continuou:
- E ainda por cima, sai da mesa sem tampar o suco! Não sabe que a vitamina C evapora em menos de 30 minutos? Volta aqui que eu não terminei.
- Me deixa!
- Se você falar  mais uma vez “me deixa”, eu não respondo por mim. E vou falar pela última vez: “O QUE SIGNIFICA ISTO?”. 

Ele não teve coragem de falar “me deixa. Saiu pro trabalho sem falar nada. Não havia o que explicar. Ela não se conformou. Agora era questão de honra uma explicação para aquilo. Ligou para uma amiga para falar do acontecido.

- Tipo assim...ridículo, né amiga! Imagina a cena!
- Isto acontece...calma! Não fica assim! Não se precipita.
-  Mas é ridículo!
- Amiga, muita calma! Pensa nos seis anos de casamento, no filho que vocês tão planejando!
- Mas eu não posso deixar isto assim!
- Faz o seguinte...observa. Só observa. Vê de quanto em quanto tempo. Vê se é sempre igual. Tem mulheres que se acostumam!
- Nuuuuuuunca!!!! Isto nuuuuunca!!!! Me acostumar, nuuuuuuuuuunca!!!!
- Ai, amiga! Então não sei o que te dizer. Isto é muito íntimo! Mas acho que observar é o melhor a fazer.

Seguiu o conselho. Passou a analisá-lo. E aquilo voltou a se repetir, com mais frequência. Quase três meses depois, levou a questão à terapeuta. 

- Eu não sei mais o que fazer. Desde o dia em que pedi uma explicação, minha vida está um inferno!
-  Mas ele te deve uma explicação? – questiona a terapeuta.
- Óóóóóbbbbvvvvioooo!!! Temos uma relação de doze anos.
- E se ele não ceder?
- Acho que vou pedir o divórcio!
- É necessário?
- Não sei, mas acho que é o melhor! É insuportável!
- Insuportável quanto?
- Eu não posso olhar mais pra ele!
- Ele faz isto para afetar a relação de vocês?
- Acho que sim!
- Quem sabe ele vem junto contigo outro dia e a gente começa uma terapia de casal!
 - É, talvez...
- Talvez não é resposta!
- Sim, eu concordo!

A sessão foi um fiasco. O silêncio dele em protesto à opressão dela. Não falou nada durante os 50 minutos, nem quando, aos berros, ela ameaçou matá-lo com um aparador de cutícula enquanto ele estivesse dormindo. Chegaram em casa e ela foi direto ao ponto:

- Hoje fazem exatos trêêêêêsss meeeeeeseeeeeesssssssss que eu te pedi uma explicação! Eu vou te dar  uma última chance: ou tu me explicas isto agora ou eu quero o divórcio!
-  Quem quer o divórcio sou eu!

Silêncio. Ela explodiu:

- Eu sabiiiiiiiiiiiiiia!!!! Eu saaabiiiiiiiiiiiiiaaaaaaaaaaa!!!! Quem é a vagabuuuuuuunda?
- Não tem vagabunda!
- Claro que teeeeeeeeeeeeeem! Eu sei que teeeeeeeeeeeeeeeeeem!
- Não tem ninguém!
- E digo mais. Não só é vagabunda como é uma pirralha!
- Não inventa!
- Uma amante mais nova é a úúúúúnica explicação para este tênis ridículo que não sai dos teus pés. É bem a tua cara mesmo! Com 36 anos, começa a usar All Star. Daqui a pouco, chega em casa com franja!
- CHEEEEEEGA!!! É por isto que eu quero o divórcio. Não tem amante, não tem pirralha, não tem vagabunda! Tem um tênis. Só um tênis. Nosso casamento está acabando por um tênis!

Foi o fim. Terminaram.

Ele ficou bem. Orgulhoso. Fora uma jogada de mestre. Sabia que ela não resistiria ao All Star. As manchas de batom, os fios de cabelo loiro na camisa, o perfume feminino, as noitadas foram só para preparar o terreno. Se terminasse o relacionamento numa daquelas discussões, seria tachado de canalha, execrado pela própria família. Enfim, agora podia tirar o All Star dos pés e ir aos braços da estagiária de 19 anos. Noivou com ela, casou, teve dois filhos. Separou-se dela logo depois do segundo filho. Virou um boêmio. Mora num apartamento de um dormitório para garantir o colégio particular das crianças.

Ela ficou mal. Fez três anos de terapia para tentar entender como o seu único namorado e que seria o pai de seus filhos escapara de seus braços por causa de um All Star. Quando descobriu que seis meses depois do divórcio, ele noivara com a estagiária, teve certeza de que a menina se aproveitou do momento de instabilidade emocional dele. Casou. Também teve dois filhos. Sempre gostou muito do marido, mas nunca o amou. Chorou e ninguém entendeu o motivo quando um dos filhos adolescentes chegou em casa de All Star.   

2 comentários:

  1. Primeiro: Homem não tem toda essa inteligência estratégica...
    Segundo: Se fosse assim, fácil, seria muito fácil virar a página
    Terceiro:... é só uma crônica... perfeita!!!!!
    Sol

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  2. Oi, Sol...rsrsrs!!! Há homens de todos os tipos e mulheres de todos os tipos...pra crônica...tá valendo...né!!! Bj e obrigado pela leitura!!!

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