quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O Silêncio


Há coisas que são sem ser o que de fato são. Um sim pode ser um não. Um não pode ser um sim. Um talvez pode ser ambos. Um “não sei” pode ser tudo o que se quer. Mas há  pouca coisa que possa ser mais do que o silêncio.

O silêncio resume o que se quer dizer e diz mais do que se quer ouvir. O silêncio é o escudo de quem fala.  O silêncio é a esperança de quem escuta. O silêncio comprime. O silêncio disserta. O silêncio condena. O silêncio absolve. O silêncio explica. O silêncio pede um abraço. O silêncio empurra. O silêncio pede um beijo. O silêncio é um soco. O silêncio de um abraço sincero é um beijo a ser abortado ou a entrar em gestação. O silêncio de um abraço falso é tudo que ninguém merece.

O silêncio é angústia. O silêncio é paciência. O silêncio é tédio. O silêncio é declaração de guerra. O silêncio é pedido de paz. O silêncio é ócio. O silêncio é sono. O silêncio é concentração.  O silêncio é angústia. O silêncio é uma invenção da linguagem para dizer o óbvio, o que se tem medo de dizer e o que nunca será dito. O silêncio está no olhar desinteressado de quem convive. O silêncio não está no olhar intenso de quem namora.  O silêncio mora no silêncio de fato. O silêncio se hospeda no Feicebuque. O silêncio usa status ausente ou invisível no MSN. O silêncio é real. O silêncio é virtual.  O silêncio é lógico. O silêncio é emocional.

O silêncio é a consagração do cozinheiro. O silêncio é  o desemprego do músico.  O silêncio é o trabalho do monge. O silêncio é o descanso da língua. O silêncio é o encontro dos lábios. O silêncio é  o irrigar da saliva. O silêncio é o parto do mau hálito. O silêncio é a concentração na audição. O silêncio é o diálogo dos olhos. O silêncio é o tato elevado ao quadrado. O silêncio é o olfato hipersensível. O silêncio cochicha à alma. O silêncio fala ao corpo. O silêncio berra ao coração. O silêncio grita de desespero porque não será ouvido.

A  quem não tem o que dizer, o silêncio é obra de Deus. A quem precisa escutar, o silêncio é criação do Diabo. O silêncio é Deus ao que crê. O silêncio é o que o ateu quiser. Ao realista, o silêncio é ausência de som. O silêncio é o sinal  que o sonhador espera. O silêncio é o olho da morte ao depressivo. O silêncio é o castigo do eufórico. O silêncio é movimento. O silêncio é espera. O silêncio tem conteúdo. O silêncio é vazio.

Só quem decifra o silêncio lê o ser humano.    

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