quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

História de amor feicebuqueana

Coisas de Feicebuque. 

Foram apresentados pela Márcia, sem que ela soubesse, num início de tarde de sábado naquela foto de Bondy Beach, postada lá na Austrália,. O Luciano fez um comentário na foto, metaforizando as ondas com o sorriso largo da Márcia. A Carol curtiu o comentário dele. O Luciano, que estava online, recebeu a notificação, clicou no perfil da Carol e gostou do que enxergou nas poucas fotos desbloqueadas. A Carol, que achou interessante o comentário do rapaz, também espiou o perfil dele, totalmente disponível aos amigos dos amigos. Igualmente, gostou do que viu.



Já se admiravam sem saber.


Nos dias seguintes Carol teve várias vezes uma súbita vontade de olhar o mural daquele que comparava ondas a sorrisos. Era algo protocolar nos intervalos da rotina. Curtia sem “curtir” o que lia, via e ouvia nas postagens, comentários, fotos e links. Que ninguém jamais soubesse, mas até salvou uma foto dele. Sem que Carol imaginasse, Luciano começava a criar um comportamento compulsivo. Várias vezes ao dia, olhava todas as fotos de perfil dela até chegar naquela imagem espontânea com o olhar lateral e a cabeça inclinada. Ele clicava, a imagem se maximizava e a deixava numa janela separada. Quando sentia saudade, o que acontecia toda hora, a visualizava. 


Já se faziam companhia sem saber. 


Quando a Márcia postou outra foto da praia e a Carol comentou que aquela areia era tão fofa quanto a amiga, Luciano não teve dúvida: curtiu o comentário. Fez mais. Encheu-se de coragem e...enviou um convite de amizade. Foi como se ela sentisse uma pedra de gelo fazendo cócegas no umbigo. Viu e confirmou a solicitação imediatamente. Começaram a conversar no bate-papo. Tanto faz quem chamou quem. Fizeram da Márcia a fagulha inicial da conversa. Tiveram dificuldade de se despedir. 


Já se gostavam e sabiam


E assim seguiram falando por MSN e pelo próprio Feicebuque. Não usavam o Skype porque ela tinha vergonha. Conversas ao telefone eram raras, mas aconteciam. Em semanas, começaram a postar status codificados, músicas com dedicatórias veladas. Ninguém sabia. Só eles. A cada quinta-feira, desconversavam quando o assunto era a programação do fim de semana. “vou só num bar com uns amigos”, “vou estudar algumas coisas pendentes ao mestrado”, “não sei ainda o que fazer”. Não mentiam. Só omitiam. No domingo de noite, conversavam longamente, falavam da saudade, da necessidade do encontro. Um dia, Carol chegou a dizer que ele encantadouramente a enlouquecia. Outro dia Luciano a chamou de vício. 


Já se adoravam e sabiam.


A semana mais tensa da relação foi quando ele colocou na timeline dele um comentário sobre a Luiza, que estava no Canadá. Pela primeira vez, ela se decepcionou. Luciano também pensou a relação durante aqueles dias, quando a Carol publicou no status dela uma frase defendendo a Monique no caso do estupro do BBB. Mas ambos relevaram no silêncio do envolvimento. Estavam dependentes demais um do outro. E afinal, relacionamento é assim mesmo: tolerância aos defeitos e enaltecimento às virtudes. Era mais gostoso falar da ausência recíproca, de como é difícil viver sozinho, de como as pessoas na noite são vazias e como as pessoas legais são raras.

Já estavam enrolados e não sabiam. 


O encontro tornara-se uma necessidade. O abstrato não sustentava mais o físico. Fevereiro seria perfeito para ela, natural de Cuiabá, retornar de Moscou e ele, nascido em Uruguaiana, sair de Quito por alguns dias. Marcaram em Curitiba, onde ele visitaria amigos e ela passaria uns dias com a irmã. Materializaram a história. A realidade sustentou a virtualidade. A saudade não diminuiu e o querer fez-se maior. 


Já namoravam e sabiam sem saber.


E seguiram juntos. Durante dois anos, Carol em Moscou e Luciano em Quito. Durante seis meses, Carol em Moscou e Luciano em São Paulo. Durante o resto de seus dias, Carol e Luciano em Florianópolis. Realmente nasceram um para o outro. Raramente discutiam. Só tiveram divergências. Ah, tiveram também um casal de filhos. A menina, lógico, se chamou Márcia. O menino, lógico, João, que era o nome do pai da Márcia. Afinal, se ele não fosse funcionário público, trocando-se de cidades tantas vezes, Márcia não teria sido colega de Carol no colégio em Cuiabá e nem de Luciano em Uruguaiana e ambos, muito menos, amigos dela no Feicebuque.


Sempre leram as entrelinhas e isto fez toda a diferença. 

6 comentários:

  1. Muito obrigado pela leitura e a apreciação! Agradar leitoras assim qualificadas e queridas é estar lisonjeado...rsrsrs!!! Bjs!

    ResponderExcluir
  2. Muito jóia!! Adoro teus textos!!! Parabéns!

    ResponderExcluir
  3. Muito bom, meu amigo! Uma saborosa leitura. Teu texto é contemporâneo, bem humorado e generoso. Sou teu leitor! Abraço
    Renato Franco

    ResponderExcluir
  4. Muito obrigado, Tina!!! Isto só incentiva!!!

    Ao amigo Renato, a citação de Bondy Beach não foi por nada...rsrsrs!!!

    Bj pra Tina e um quebra-costela pro Renato!!!!

    ResponderExcluir