quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A mulher da zarabatana


Casal  de ficantes. A primeira vez dela no apartamento dele. Pela primeira vez também, talvez aconteça. Talvez não. Lá pelas tantas:  

- Mais espumante?
- Não! Obrigada!
-  Ok!
- Já  tô na terceira taça! Calma...hihihihi!!!
-  Mas assim...sério, não te preocupa....tá?
- Eu não tô preocupada...tá?
- Tá!
A conversa avança. Falam. Falam da vida. Falam de tudo. Falam bastante. Estão descontraídos. Então, ela vai ao banheiro com o seu salto marcando sonoramente o território dentro do ambiente. Ele se estende no sofá. Ela retorna. Fica parada de pé na frante dele, que diz:

- Vem cá!
- Huuummm...malandrinho! – enquanto pensa que era exatamente isto que esperava que ele fizesse.
- Vem cá...
- Será?

Os  dois riem.  Ela vai. O clima esquenta. Já faltam mãos aos dois. Ela começa a ficar na defensiva. Ele tenta. E nada. Então diz, pela segunda vez, agora no ouvido dela:

- Não te preocupa!

Para tudo. Ela sai dos braços dele e se recompõe. Fica de pé e entra de sola:

- Porque tanta preocupação se eu tô preocupada?
- Não...não é isto...é  que...
- Eu não tô aqui?
- Tá...
- E não tá legal?
- Tá...

Pronto.  O amasso agora  já é uma DR. Os dois suspiram. Clima tenso. Provavelmente nada mais vai acontecer. E se acontecer, não vai ser tão bom quanto seria. Agora é o orgulho dele contra o honra dela:

- Falei “não te preocupa” pra te passar confiança.
- Eu só faço o que eu quero...
- Tô vendo!
- Iiiiiiiiihhhhhh....tá irritado!
- Não...só acho a situação desnecessária!
- Totalmente desnecessária.

Novo silêncio. Ela volta pro sofá. Ficam abraçados. Neste eterno impasse entre homens e mulheres é sempre ela que decide. Sempre . Ela reflete e define: vai acontecer. Começa a preparar o terreno. Não basta apenas acontecer. Tem que acontecer como ela quer.
Deitada no sofá, sorrateiramente, ela ergue um pouco o vestido para ter mais liberdade de ação. São todos movimentos curtos, disfarçados. Iça uma perna. Segundos depois, eleva a outra. Move o tronco tal a suavidade de uma brisa. Ele, com o pensamento longe, mira um ponto no teto esbranquiçado. Mal percebe que ela sentou-se sobre o seu abdomen. Entõa se dá conta. Vira o rosto pra ela. Contemplam-se com ternura, instinto e dúvida. 

E nesta posição de superioridade ela dá o bote.  É o bote rápido de uma solitária e mísera, porém certeira pergunta. A Pergunta é simples. É a pergunta que ele quer escutar. É a pergunta pra qual ele tem a resposta pronta desde que nasceu. Mas ele vai titubear pela circunstância que ela criou. E no titubeio dele, ela vai sacramentar o controle da relação que ainda nem começou.  Assim, sentada sobre ele, num tom de voz de quem pergunta a previsão do tempo, ela fala com cara de paisagem:

- Tá..mas e agora... se eu quiser te dar...eu não  posso?
- Oi?
Pausa. Em silêncio ele pede pra morrer. Ela orgulha-se de si mesma. Deu certo. Ela vai e patrola sem dó.
- Oi? Eu te pergunto se posso te dar...e tu diz “oi”?
- Não...é que...eu não tava esperando...
- Não tava esperando o que?
- Nada...
- Nada não...não tava esperando o que?
- Esta mudança...
- Que mudança?
- Tava na defensiva...e  agora....
-  Agora eu quero te dar?
- É...estranho....
- Huuummm....então não quer mais? – questiona já rindo por dentro.
- Não....não é isto... – responde ele, já pedindo pra morrer. 
- É o que?
- Nossa, que ridículo...
- Ridículo o que?
- Eu sou a vergonha da classe masculina...
- Ã?
 - Uma mulher me faz uma pergunta destas...e eu respondo....”oi”?

Ela ri. Ela gargalha. Os dois gargalham da situação. O clima se descontrai e tudo flui. Tudo acontece. Acontece como ela quis e porque ela quis. Acontece também na sequência o rolo, o namoro, o noivado e o casamento. Sim, eles são felizes para sempre, assim como pra sempre também é o controle dela sobre ele. Cada “oi” dele a uma pergunta dela é e será sempre uma confissão de culpa. Quando desconfiar de algo, ela nunca perguntará no calor da hora ou fará tempestades públicas como as inexperientes e amadoras.

Escândalo é para as fracas.

Ela, a mulher estratégica, esperará  sempre aquele momento de relaxamento total dos pensamentos dele. Procurará instantes como uma terça-feira à noite, no intervalo do telejornal ou o término da manobra no estacionamento dum shopping. Então lançará seu veneno verbal que extrai a verdade com a discrição de uma zarabatana. E quando ele responder “oi”, sem que ela faça um único gesto, o coitado vai suspirar e já incluirá na sequência “tá bom, amor, eu explico”.    

Nenhum comentário:

Postar um comentário