quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Uma história que não é de amor


Num bar, à distância, pelo jeito de olhar, ambos percebem que podem formar um casal adulto interessante. Passam-se alguns minutos. Ele está junto dela:

- Oi!  - diz ele sorrindo e pensando que se ela responder com um sorriso é meio caminho andado.

- Oi! – diz ela com um meio-sorriso, pensando que se der um sorriso inteiro, ele vai se achar dono do campinho.

- Posso saber seu nome? – diz ele, pensando que se ela disser não, pronto, tá tudo acabado e vai partir pra outra.

- Daniela!  - diz, ela pensando que pelo menos a abordagem não foi ridícula, o que significa uma possibilidade de evolução. Percebe que o perfume dele é bom, o que eleva a cotação do pretendente.

- Huuummm...você  é daqui? – pergunta ele enquanto pensa em algo mais interessante pra dizer até decidir o método definitivo de abordagem. Imagina também que o fato dela não ter perguntado o nome dele pode ser falta de interesse. 

- Sim! – diz ela, reparando que o “huuummmm” dele até que é bem charmoso e pensando que se perguntar se ele é também é da cidade vai parecer interesse explícito da parte dela, que precisa se valorizar.

-  Eu também sou daqui. Engraçado, nunca ter te visto antes! – diz ele, pensando que realmente nunca a vira antes e em dúvida se diz seu nome voluntariamente ou espera ela questionar.   

-  Eu também nunca te vi por aqui! Como é seu nome? – diz ela, gostando definitivamente do perfume dele e conceituando o indivíduo como um tipo interessante.

-  É Paulo! Paulo...Roberto! -  diz ele, pausadamente, a fim de  enfatizar o nome composto e com a certeza de que se ela perguntou o nome dele é porque tem interesse.

- Hum, Paaaaulo! – diz ela, pensando que ele é um homem normal, com um nome normal, com uma voz normal, mas com algo interessante, que ela ainda não identificou. 

- Sei que é redundante, Daniela, mas você chama muito atenção! – diz ele, enfatizando o nome dela numa tentativa inconsciente de memorizá-lo para não cometer nenhuma gafe mais adiante e também já arrependido, pensando que deveria ter falado algo mais inteligente, porque começar a conversa com uma redundância passa a imagem de falta de conteúdo.

- Obrigada! – diz ela, pensando que a palavra “redundante” mostra que ele tem vocabulário, lê e, com certeza, pelo menos uma boa conversa deve sair do encontro. Fica também  imaginando que ele gostou do nome dela, tanto que o citou na conversa.

Os dois se olham. Sorriem. 

- Você trabalha com o quê? – questiona ele, pensando que a resposta dela vai dizer definitivamente qual o método de abordagem.

- Sou administradora -  diz ela, pensando o que ele vai pensar sobre isto.

-  Huuummm....administradora! Legal! Muito legal! Visão sistêmica! Habilidade para lidar com a área de exatas  e também com pessoas. Administradores são uma espécie de camaleão das potencialidades humanas – diz ele num meio-sorriso, pensando que administradora é foda, porque administradora lida com números, lida com gente, lida com tudo e uma  mulher administradora  não gera nenhuma linha específica de abordagem.

- Ééééé! – diz ela, sorrindo com ênfase e orgulhosa de que ele tenha gostado da profissão dela, pensando que a metáfora do camaleão foi muito apropriada. 

- Mas a Daniela  atua em que área da administração? – diz ele, imaginando que, pelo jeito feliz com que ela se manifestou, deva ser da área de Recursos Humanos.

- Recursos...humaaaaaanos...hihihi – diz ela, pausadamente, com o sorriso ocupando metade do rosto, seguido de uma risada protocolar e pensando novamente sobre o que ele vai pensar disto, mas percebendo também que ele realmente está interessado nela porque novamente inseriu o nome dela na conversa, mostrando interesse e que está focado no diálogo.

- Nossa...legal! Acho muito legal gente que lida com gente! Gosto disto! – diz ele, já se desmotivando pela maneira como ela falou, pensando que ela deve ser uma chata de RH, que fica falando em motivação, espírito de equipe, treinamentos, psicologia empresarial, horizontes corporativos e já antevendo um relacionamento traumático em que ela pregaria o evangelho de que casal é como uma equipe, que um depende do outro, que é preciso união para vencer obstáculos. 

- Sim, eu adoro! Aaaaamo minha profissão! Eu aaaaamo pessoas! Eu aaaaamo lidar com gente! Eu aaaaamo fazer diferença na vida das pessoas. E você, faz o quê? – questiona ela enquanto pensa que finalmente encontrou um homem que tem espírito humanista, sensível e que pensa de forma subjetiva, valorizando a profissão dela. Já projeta também um relacionamento saudável, em que o casal crescerá junto, discutindo os problemas e celebrando as conquistas conjuntas.

- Sou...advogado! -  diz ele, deixando  o tom de voz mais grave, como fazem todos os advogados, enquanto conclui, definitivamente, que ela é uma mulher chata. Pensa também que para ela usar o verbo amar quatro vezes seguidas deve estar carente ou ser daquele tipo de pessoa irritantemente feliz, com uma visão escandalosamente otimista do mundo.

- Advogado...olha que interessanteeeee! Qual área? – diz ela, pensando que deveria ter percebido que ele era advogado pelo “redundante”, porque só um advogado usaria redundante,  e que o tom formal com que ele falou “advogado” mostra que ele deve adorar quando o chamam de “doutor”. 

- Criminal – diz ele, inclinando a cabeça com a intenção inconsciente de paecer intelectual, enquanto conclui que ela é de definitivamente chata, já com uma leve indignação com aquele sorriso empalhado no rosto dela, mas que ela vale o esforço porque não quer passar mais uma noite sozinho.

- Olha sóóóó...um homem da leeeeeei!!!! – diz ela, pensando que o movimento de cabeça dele querendo passar  por intelectual foi ridículo e que ele deve ser um inescrupuloso, defensor de assassinos e marginais em troca de dinheiro e que ela, uma mulher com a missão de fazer as pessoas felizes não pode se envolver com um cara deste nível, mas ao mesmo tempo...está há meses sem beijar ninguém e ele é cheiroso.

 - É...sou mesmo! – diz ele, pensando que está até sem vontade de argumentar e que se ela falar mais uma vez sorrindo e espichadando o som de uma vogal vai dar  as costas e ir embora.

Toca o celular dele, que atende e se afasta enquanto fala. É a Luciane, uma colega de trabalho na qual ele investe há tempos, finalmente cedendo e convidando para uma saída. Paulo aceita.

- Tenho que solicitar todas as desculpas do mundo. Preciso ir embora. Motivo particular. Mas queria dizer que a tua companhia é muito aprazível – diz ele, pensando que aquela mulher chata vai ficar encalhada por muito tempo.

- Pôôôôôxa, que peeeeena! Te entendo! Também gostei muito de conhecer vocêêêêê! – diz ela, aliviada, fingindo lamento sem tirar o sorriso do rosto,  pensando que um homem que usa o verbo “solicitar” e o adjetivo “aprazível” numa conversa realmente é um chato de galocha.

Paulo dá as costas e sai do bar. Eles nunca mais se vêem porque este texto é uma história que não é de amor. 

2 comentários:

  1. hehehehe Ótima! Ainda bem que não sou só eu que sou assim, descartando pretendentes de cara pelo papinho previsível e chato!

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