segunda-feira, 12 de março de 2012

Banheiro masculino


Balada. São 3h07min. O banheiro masculino está lotado.

Em frente ao espelho, território mais disputado do ambiente, quatro desconhecidos dividem o espaço. O primeiro deles, bem à esquerda, está de camiseta baby look e  se esforça em organizar os cabelos organizadamente desorganizados. Com a ponta dos dedos, ajusta um fio sobre o outro e, por vezes se aproxima do espelho para patrulhar alguma impureza na pele. Do lado dele, um outro tipo, com mais de 30 anos, de camisa polo, ajusta a franja em movimentos repetitivos. Ele olha compulsivamente pros lados para ver se não está sendo observado enquanto a mão desliza pela testa alinhando o penteado que parece um tobogã. Mais à direita, um cara alto, de camisa xadrez, treina um sorriso no espelho, erguendo o braço em que segura uma garrafa long neck. Faz isto várias vezes, inclusive inclinando a cabeça para baixo como se ensaiasse uma aproximação ou um brinde a uma mulher imaginária, sem perceber que ao lado dele, de camiseta rosa está um bêbado, estático, com os braços soltos. O bêbado olha a própria imagem refletida como se perguntasse em silêncio a si mesmo o que faz ali. Atrás do quarteto, numa segunda linha, em busca de espaço junto do espelho, outros cinco homens se esfregam no limite do respeito com a necessidade de cultivar a aparência. Um destes da fileira posterior, que usa uma camisa de um time de rugby, fala alto sem deixar de mirar o espelho:

- Ôôôôô Luiz! Vai pegá a loirinha da saia verde?

O Luiz, um pouco bêbado, responde no mesmo tom de voz, olhando pra parede, enquanto usa o mictório alguns metros atrás:

- Não seeeeei! Acho que vô na morena de branco. Ela tá mais bêbada!

O amigo retruca, agora em frente ao espelho, agora ocupando o lugar do cara que ajeitava a franja:

- Éééééé....tá certo! Deixa a loirinha pra outro dia! A loirinha fala demais!

Nesse momento, um baixinho, com camiseta colada ao tórax inchado da musculação, entra em meio à multidão comprimida no espaço pequeno, gritando ao celular, com a outra mão tampando o ouvido:

- EU NÃO TE ESCUUUUTO!!!! EU NÃO TE ESCUUUUUUUUUUTO. MAS VEM! VEM AGORA! VEM QUE TÁ RECHEADO... O QUE?...NÃO, A MARI NÃO TÁ... MAS A JU TÁ! PODE VIR, QUE SOZINHO TU NÃO FICA. VEM QUE A GENTE TÁ TE ESPERANDO! TEM MUUUUITA MULHER!!!

Enquanto o baixinho da camiseta fala alto, é subitamente empurrado por uma onda humana causada por um gordo que adentra o ambiente, criando uma dramática e silenciosa luta por espaço. O gordo fica parado enquanto um novo posicionamento dos corpos se estabelece à sua volta. O empurra-empurra faz o bêbado da camiseta rosa diante do espelho que não sabia o que fazia ali se debruçar, apoiando as mãos no balcão. Ele baixa a cabeça junto da pia com os olhos fechados e lembra que foi até ali para tentar vomitar.

Ele não consegue. Quer pedir ajuda, mas também não consegue. Seu drama segue anônimo, solitário, mas é uma fábula diante da tragédia que acontece alguns metros atrás com o cara de óculos que está no vértice do mictório em L.

Quase adormecido, depois de deixar o copo de vodka com energético na ampara, o cara de óculos escora-se na parede com as duas mãos enquanto urina. Só que a onda humana causada pelo gordo o desequilibra e ele vê os óculos e a comanda da festa, que estava no bolso da camisa, caírem dentro do mictório. Ele quer indingar-se e protestar, mas não tem força. Resignado, enfia as duas mãos no mictório. Em meio à correnteza amarela e quente, começa a tatear a superfície até que encontra os óculos. Limpa as lentes na parte baixa da camisa e os põe no rosto. Na sequência, pega a comanda encharcada de urina e guarda no bolso da camisa, criando uma mancha úmida em toda a parte esquerda da roupa.  Vira-se para sair. Não consegue. Do lado dele, um desconhecido, igualmente bêbado, que também tenta se mover e não consegue, começa a imitar o Galvão Bueno:

- ÉÉÉÉÉ....AMIGO!!!! É COOOOOPA DO MUNDO!!!!!

Ninguém ri e em meio à pequena multidão, perto da porta, alguém se passa pelo Tiririca, começa a xingar o falso Galvão Bueno:

- Maixxx exte Galvão Bueeeeeenuuuuu....é um abexxxttttaaaaaadoooo!!!!!

O Galvão Bueno fica indignado e xinga Tiririca. O Tiririca retruca.  Os dois se ameaçam. E a turma do deixa disto contorna a situação.

Então o gordo se mexe novamente e uma nova onda humana se cria. A maré de corpos empurra do Galvão Bueno e o cara dos óculos mijados para junto do bêbado de rosa, que permanece com os olhos fechados e a cabeça junto da pia, com as mãos no balcão. É quando o Galvão Bueno  chega pelas costas do bêbado de camiseta rosa e grita no ouvido dele:

-  A REGRA É CLAAAARA, AMIGO!!! BEBEU, TEM QUE VOMITARRRRRRRRRRRRRR!!!!!!

A voz assusta o bêbado, que despeja na pia um jato alaranjado com pedaços de carne, arroz e salada, respingando em todos que estão à sua volta. A nuvem fétida e morna se espalha pelo ambiente. O cara dos óculos mijados percebe que a maior parte do vômito do desconhecido ficou em suas calças. Cria-se um consenso coletivo de que o Galvão Bueno foi o culpado pelo episódio. Começam os empurrões e insultos. O Galvão Bueno tenta se defender como se fosse, de fato, o próprio narrador:

- QUE É ISTO, AMIGO!  É SÓ PORQUE EU SOU DA  GLOBO? LAMENTÁÁÁÁÁVVVVEEEELLL!!!!!

Neste instante, o Tiririca dá um soco no Galvão Bueno e começa o tumulto. A coisa fica feia pro Galvão Bueno, que grita:

- ISTO É COVARRRRRDIIIA!!! VOU CHAMAR O ANDERRRRRRRSON SILVA, QUE É MEU AMIGO!!!!

 Os seguranças chegam e tiram todo mundo do ambiente, menos o bêbado de camiseta rosa, que segue vomitando, tendo ao lado, lhe dando apoio, o cara dos óculos mijados, camisa úmida e calça vomitada ao seu lado.

Já são amigos de infância.   

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