quinta-feira, 1 de março de 2012

Ele é ou não é?


O pessoal do escritório sempre considerou o Antônio um tipo estranho. É que a compulsão dele em mencionar preferências insólitas abria espaço a múltiplas interpretações sobre aquele homem casado e pai de um casal de filhos.

Os comentários se reforçavam com cenas como a daquela terça-feira de manhã, em que ele chamou todos os colegas da contabilidade para mostrar seu kit novo de corrida: um short curtíssimo com fenda lateral, o novo CD do Chico Buarque em MP3, protetor de mamilos e óleo para a parte interna das coxas. Diante do silêncio constrangido dos colegas, logo explicou, antes de qualquer mal entendido:

- Gente, isto tudo faz parte da minha indumentária de atleta. Por exemplo: o tecido roçando no mamilo é horrível depois dos 20 quilômetros. E quanto ao Chico...eu escuto Chico sempre. E uso fone de ouvido sempre. Por exemplo, adoro ir no supermercado e gastar meus bons 20 minutos escolhendo meu azeite de oliva extra-virgem, com o Chico cantando no meu ouvido. O Chico tá sempre comigo. O Chico é uma espécie de...amigo, um meio-irmão.

Outra mania do Antônio era o cacoete do “érrimo” e do “ésimo” . Tudo era “érrimo” pra ele. Sempre jogava ao ar exclamações como“estou atrasadérrimo pra reunião”, “estas planilhas são complicadésimas”, “o café está amarguésimo”, “eu estou atucanadérrimo”.  Logo, com a junção de fatores como estes, foi inevitável o surgimento de lendas a respeito da sexualidade do Antônio e brincadeiras veladas dos colegas em relação a ele. Todos na empresa passaram a adotar o “érrimo”  e o “ésimo” em tom de ironia em suas próprias expressões.

Em seus dias eufóricos, o Antônio era uma usina de jargões do universo feminino, o  que alimentava ainda mais as brincadeiras.  Naquele mesmo dia de fevereiro em que chamou a Ivete Sangalo de diva e disse que se arrepiava ao ver as pernas dela, Antônio comentou, ao que todas as colegas mulheres saíram do escritório para uma reunião:

- Nossa, até que enfim!!! Mulher fala demais. Que silêncio delicioso entre nós, né rapazes!

Os rapazes se entreolharam. Ninguém respondeu.

E quando as colegas voltaram da tal reunião, uma  delas comentou em voz alta:

- Gente, eu não vou conseguir dormir enquanto este plano de ação não entrar em prática. Remédio tarja preta pra mim. Já tô vendo.

O Antônio, voluntarioso, tentou tranquilizá-la:

- Amiga, o segredo  é um ritual. A insônia nunca vem quando se tem um ritual. Eu, por exemplo, tenho na parede do  lado da cama um espelho de corpo inteiro. Sempre me penteio nu antes de dormir. Fico me olhando no espelho e chamando Morfeu silenciosamente. E ele sempre vem! 

Pronto. Foi a gota d’água.

A partir daquele dia, as brincadeiras tornaram-se explícitas. O Cláudio, hierarquicamente superior ao Antônio, solteiro convicto e o mais extrovertido da empresa, com a ajuda do Sérgio e do Douglas, até criou um banco de apostas entre os colegas sobre quando o Antônio sairia do armário. Todos aderiram. Então, num dia após o almoço, Cláudio foi até a mesa do Antônio. Falou em voz alta para que todos ouvissem:

- E aí! Como vai o homem do silêncio delicioso?

- Escandalosamente bem!

- Então, Antônio...é que a gente resolveu criar um banco de apostas para ver quando o nosso colega que se penteia nu na frente do espelho vai sair do armário. São vinte reais. Quer participar? 
- Mas é óóóóóóbbbbbbbvvvvvvvvvviiiiiiiiioooooooo!

- Ok! Qual é a tua data?

-  Eu vou sair do armário um dia depois que você!

Silêncio absoluto. Climão. O Cláudio sorriu constrangido e tentou remendar:

- Hahahaha...e vai sair do armário contando piada..

Risadas constrangidas. Climão organizacional estabelecido.

O Antônio levantou-se e continuou :

- Cláudio,  qual o teu signo?

- Câncer. 

- Qual teu ascendente?

- Sagitário.

- Qual o teu signo da lua?

- Touro.

- Huuuummmm....qual idade?

-  45.

- Casado?

- Não.

- Já foi casado?

- Não.

- Tem filhos?

Não.

- Então! O prédio aqui do escritório tem 22 andares, onde trabalham pelo menos mil pessoas. Se você descobrir mais dois homens heterossexuais acima dos quarenta anos, sem filhos, que saibam o próprio signo, o  ascendente e o signo da lua, eu me assumo como gay. Caso contrário, quem se assume é você...ok?

Todos olham para o Cláudio.

- Ué! Tá azedo hoje?

- Não, não tô! Só acho o “ó” este tipo de desaforo de um bofe que se diz “astrólogo” por vocação, sempre coladinho com o Douglas, que fica traduzindo as letras do Bryan Adams, mordiscando a caneta no canto da boca e o Sérgio, que traz actívia light de lanche todo dia e ainda lambe a tampa da embalagem. Quem de vocês é o mais macho?

Silêncio

E o Antônio continuou:

- E outra...paramos por aí, porque hoje eu tô ácido. De manhã, quando me despedi de Morfeu, o Diabo falou no meu ouvido: ‘vai e causa, Tônio’. E tô causando.

Mais silêncio.

O Cláudio deu as costas ao Antônio, no bom sentido, e começou a devolver o dinheiro das apostas a cada um dos colegas. A reação de Antônio realmente causara e causaria muito mais na empresa.
O assunto chegou à direção, que advertiu os três organizadores do banco de apostas. Dois meses depois, diante dos boatos sobre sua sexualidade, Cláudio viu-se obrigado a assumir o relacionamento com a prostituta pela qual sempre fora apaixonado mas envergonhava-se. Ficou no mesmo cargo que ocupava na data da brincadeira até a aposentadoria. 

Enquanto isto, Antônio passou a ser respeitado pelos colegas  e recebera uma sequência de promoções.  A direção precisava de alguém autêntico, com  pulso firme, sem medo de represálias e percebeu na reação de Antônio diante de Cláudio este perfil.  Antônio continuou casado e manteve, por mais quatro anos, o romance secreto com Roberta, colega de escritório que lhe avisara com antecedência a respeito da brincadeira criada por Cláudio, seu ex-namorado que a traíra.  


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