quarta-feira, 21 de março de 2012

A mulher pré-socrática

Ela é linda e inteligente. Tão linda quanto inteligente. Muito linda e muito inteligente. Ela é aquele tipo de mulher que todos querem e pouquíssimos terão. A maioria já naufraga no medo da abordagem. Entre os que ousam palavrear, poucos se mantêm de pé diante da perspicácia dela.
É diante deste tipo de mulher que os homens e os covardes se revelam.

Os homens, no impulso primitivo e inconsciente de melhoramento de seus descendentes, arriscam-se.  
Os covardes, a quem a natureza destina o que os capazes desprezam, só a sonham. Esses nunca a terão. Nunca. A não ser que ela queira. 

E houve uma noite em que ela, por capricho, quis aquele homem sem virtudes. Sim, um comum. Ela o fulminou em meio às mesas do bar. Ele percebeu. O bar todo olhava pra ela e pra ele, que era a quem  ela olhava. Os amigos do rapaz se alvoroçam. Não entendem porque ele. Justo ele, um comum, que passa incólume na maioria das festas. Não há lógica na cena.

 Então ele, que é comum, mas não é covarde, caminha até o monumento humano. Marcha com a confiança e a insolência descontraída de quem sabe que não pode perder o que nunca teve. O pior que pode acontecer agora é o mais lógico: nada. Por outro lado, o melhor que pode acontecer é o que jamais aconteceu: uma mulher daquelas. 

- Oi!
- Oi!
- Linda você, lindíssima!
-  Obrigada! Você também é interessante!
- Que é isto! Eu?

Sorrisos.

- Como é seu nome?
- Fernanda! E o seu?
- Fernando! – diz ele sorrindo e agradecendo a Deus por algo em comum.
-  Nossa, que legal! Então você deve ser o Nando.
- Sim, né...Nanda.

Os dois sorriem de novo. O Nando pega confiança.

- E a Nanda faz o que?
- Historiadora!
- Huuuummm....interessante!  - enquanto pensa que não vai ter bagagem cultural para sustentar a conversa.
- Pesquisa alguma área específica?
- Sim! Popularmente falando, estudo a influência da filosofia pré-socrática na idade contemporânea.
- A tá! – completa,  prometendo dois anos de missa no domingo e adesão à coleta seletiva de lixo se sobreviver à conversa.
- E você, faz o que?
- Sou gerente de marketing em uma empresa de informática.
- Nossa, que legal. Filosofia e marketing têm uma relação muito próxima, né!
- É! Muito! Demais! A filosofia é uma espécie de irmã mais velha do marketing! – diz ele, tenso, enquanto tenta encontrar uma relação entre marketing e filosofia.

Sorrisos.


- Assim, Nanda...
- Fala, Nando...

Sorrisos.

- Tenho que pedir licença! Vou ao banheiro!  Já volto!
-Claro! Espero aqui! Não me abandone!
- Jamais...jamais!

Ele vai. Ela espera. Continua esperando. Os amigos dele acompanham da mesa a solidão dela. Não entendem o que aconteceu. Um deles vai ao banheiro em busca do Nando. Ele não pode desonrar a turma.

- Ô Nando!!!
- Fala!!!
- Que tá fazendo aí trancado? Não acredito....
- Me deixa...me deixa....
- Cara...a deusa lá do bar vai te largar...já tem um monte de cara olhando pra ela...
- Me deixa....já vou lá....
- Cagão...!!! – diz ele, enquanto gargalha da situação.

O amigo volta à mesa e explica o motivo da demora. Todos riem. Começam as piadas. Ela, no bar, percebe a situação, mas não consegue escutar o teor do diálogo.

Passam-se dez minutos. Então o Nando retorna. Está suado e com cara de alívio. Pede duas cervejas e continua a conversa como se nada tivesse acontecido. 

- Então, retomando o que a gente falava...com certeza existe uma relação total entre marketing e filosofia, né!!! Na filosofia pré-socrática, então, é um absurdo!
- É, né!
- Se a gente olhar só pra Escola Jônica, o próprio Heráclito, quando diz que “tudo flui”, já tá estabelecendo um conceito de marketing, porque o que fazemos é justamente desenvolver a imagem e a aceitação da evolução natural de tudo que envolve  a matéria e suas consequências humanizadas.
- Nossssssaaa!!!! Ameeei isto! Muito perfeito. Exatamente. Nada é estático. Tudo é movimento, exceto o próprio movimento.
- Justamente. Daí, além de Heráclito, a gente pode colocar junto, mesmo sendo da Escola Eleata, o pensamento de Parmênides...não sei se concordas!
- Aiêêê...de onde vem isto??? Nunca consegui conversar com ninguém assim...
- Sei lá...como diria o Heráclito...tudo flui!!!

Sorrisos. Mais sorrisos. Sorrisos com a boca. Sorrisos com os olhos.

- Estou embasbacada!  Demais...demais!
- Assim eu fico envergonhado...mas voltando...Parmênides é um pouco disto, né!
- Claro! É a unidade e a imobilidade do ser, afinal, não se pode confiar no que se vê, né?
- Hahahaha!!! Eu sou o algoz do Parmênides. Minha vida é fazer as pessoas confiarem mesmo sem ver...
- Nando...não me julgue mal...mas preciso dizer que tô encantada contigo! – diz ela com os olhos cintilantes.  
- Bom, nem preciso dizer que a recíproca é total e verdadeira...né!!! E se não me levar a mal...acho que chega de filosofia e marketing...né!
- Claro!
- Então...vamos falar de nós?
- Sim, sim! Bem melhor! Deixemos os filósofos descansarem...
-  Então, de onde és? Em que universidade pesquisas?

Ela responde. Os dois falam da vida, música, comida, amizades, relacionamentos. Trocam telefones e alguns beijos.  Combinam de se encontrar novamente. Ela quer no dia seguinte. Ele diz que está com a agenda estourada para os próximos três dias.

 Ela acredita. Mas é mentira.

 Ele pediu o prazo para estudar.  Nestes três dias, cancelou reuniões, se isolou do mundo e mergulhou nos livros sobre filósofos pré-socráticos, afinal o aplicativo do Google no telefone só serviu pra quebrar o galho, enquanto estava no banheiro. Não se importou com as gargalhadas e piadas dos amigos.  Eles, limitados, jamais entenderiam que agora ele não fazia mais parte dos homens comuns. Ele era smart, tão smart quanto seu smartphone permitisse que ele fosse.  

5 comentários:

  1. Nossa confesso que como historiadora que sou, fiquei encantanda hehehe.
    Falando sério (e sendo historiadora de verdade) parabéns pelo texto, muito bom. Parabéns pelo blog e também pelo livro que virá em breve...como garanto o meu exemplar? heh
    Sucesso.
    Danielle Cosme

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  2. chama-la de pre-socratica é coloca-la a um patamar de genio, quem ousa dizer que ja era um filosofo antes de socrates? para caractrerizar essa mulher com tais adjetivos, devo acreditar que tens um sentimento enorme por ela?

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  3. Oi, Danielle! Muito obrigado! Que bom que gostou! Quanto ao livro, teremos um lançamento e também estará à venda!!! Desde já, agradeço a leitura! Bj grande!

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  4. Querido Anônimo ou querida Anônima...antes de mais nada...muito obrigado pela leitura.

    Acho que é normal uma relação de afeto entre criador e criatura, logo, tenho sim, um grande sentimento pela personagem criada, até porque ela conseguiu ser inteligente, linda e bem resolvida...rsrsrs. O adjetivo pré-socrático é só um recurso literário...

    Quanto à discussão filosófica, a mesma não era para estar no centro da questão. Mas me permito acreditar que se os pré-socráticos são estudados dentro da filosofia é porque são filósofos. Optei por Heráclito e Parmênides justamente para colocar algo diferente. Toda vez que se fala em filosofia, entram sempre os mesmos Sócrates, Platão, Descartes, Kant ou Wittgenstein. A intenção foi fugir disto.

    Abraço, Cássio

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  5. hahahahaha A-DO-RE-I!!!!!!!!!!!!!
    É a melhor demonstração de: "Quem quer faz, quem não quer arruma uma desculpa!"
    Sem contar o contexto abordado, muito bom!

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