domingo, 18 de março de 2012

Tão simples que é complicado


O Simples está morrendo.

Falece aos poucos, linchado pelo Mais, o Maior, o Melhor e o Máximo. É a Máfia do “M”. Há quem tenha carinho pelo Simples. Mas não ousa defendê-lo. Medo da exposição. Ir contra o Mais, o Maior, o Melhor e o Máximo parece ridículo.  Mas fazer o quê? São os tempos. Os tempos da competitividade em que o Simples é querido, mas é feio. É importante, mas não serve pra nada. Todo mundo admira, mas ninguém quer... o Simples.

É uma espécie de ingratidão.

E as próprias palavras são um bom exemplo disto. Tempos atrás li um texto que falava sobre o antagonismo entre tamanho delas e o significado.Foi ali que aprendi a respeitar o Simples. O texto mostrava que aqueles amontoados de letras mais singelos são os que levaram o mundo a ser mundo e que realmente fazem toda a diferença em relação à vida: ar, rio, terra, mar, céu, sol, lua, chuva, fogo, paz, guerra, amor, ódio, eu, tu, você, nós, pai, mãe, filho, avô, avó, sede, fome, casa, beijo, sexo, luz, voz, boca, nariz, olhos, dedo, mão, pé, pele, por exemplo.

E tristemenente, são todas palavras em extinção. São faladas, mas não são ditas. São preteridas diante de suas concorrentes escoltadas pela Máfia do “M”, tão maiores e mais vistosas quanto mais vazias. Maximização, institucionalização, politicamente, corporativo, conceitualização, relacionamento, individualização ou cibernético são bons exemplos de palavras complexas, sem grande significado e que são fundamentais na busca de mais, maior, melhor ou máxima diferenciação de quem as usa.

E as pessoas, de certa forma, acabaram por tornarem-se espelhos das suas palavras. Todo mundo quer ser sofisticado. Todos querem ter gravado em sua personalidade pelo menos uma característica ligada à Máfia do “M”. O melhor desempenho nos estudos, o maior salário no trabalho, a máxima habilidade no esporte, mais amigos no Facebook, a melhor de cama, o mais pegador, o mais legal, a mais querida, o maior porre, o máximo volume de silicone, a maior dívida. Sim, já vi até o maior prejuízo ser motivo de orgulho numa mesa de bar.

So que ninguém quer ser o mais simples.

E nesta ânsia de ter algum “M” no currículo pessoal, os relacionamentos também acabam afetados. A expectativa de viver uma história que tenha algo de mais, maior, melhor ou máximo faz com que se esqueça de gestos simples que caracterizaram um casal acabem preteridos. Hoje, não há mais pessoas que iniciem uma história e que imaginem-se em dupla no supermercado, atirados numa tarde de domingo chuvosa, diante de um pôr-do-sol ou a falar de futuro. É que fica mais impressionante oferecer o melhor presente, a janta mais cara ou a maior declaração de amor. Mesmo que não seja de coração.

Pra usar palavras da Máfia do “M”, eis a complexidade e superficialidade dos namoros, que para não serem simples, agora chamam-se relacionamentos. Sim, relacionamentos, tal como os que temos com bancos, clubes, lojas. Pergunta-se para alguém: “tá namorando?”.  Ele ou ela respondem: “Sim, eu tô num relacionamento”.  É mais impessoal. É uma proteção do Simples. É que o Simples, sabe como é, parece muito complicado.  

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