quarta-feira, 18 de abril de 2012

Relação pronominal


Relacionamento em crise. Talvez seja a última conversa do Douglas e da Cláudia.

- Assim...ó!!
- O que?
- Não dá mais...
- O queeee???
- É...não dá mais!!!
- O Douglas não tá acreditando...
- Sim. Eu pedi, implorei...
- É sério?
- Sim...é sério!
- Mas a Cláudia jurou que daria um prazo pro Douglas pensar ou tentar mudar...
- Óóóóó....tá vendo!?!?! Não tem esforço...não tem nem sinal de vontade...
- Mas isto irrita tanto a Cláudia?
- Sim, irrita. Irrita porque a Cláudia sou eu, porque o Douglas é você e porque esta mania de falar sempre na terceira com nome próprio me dá nos nervos!!!
- A Cláudia tá de TPM...o Douglas sabe!!!
- Qué Pará? Não é TPM...é indignação, revolta, quase um desespero!
- Que é isto??? O Douglas acha que não é pra tanto...
-  É desgosto, amor...é lamento pelo nosso namoro acabar por causa deste vício de linguagem ridículo, por causa desta teimosia em não mudar.
- O Douglas jura que tenta, mas não consegue entender a Cláudia!
- Ah, não consegue!?!
- É...o Douglas lembra bem que foi o jeito dele de falar que fez a Cláudia sorrir, se divertir, e achar o máximo a novidade.
- Foi engraçado. Não é mais!
- E por quê?
- Não sei...
- É sempre assim. O diferente encanta, atrai, mas na hora H todo mundo quer alguém normal. O Douglas é diferente. E tudo que é diferente tem utilidade temporária. Depois, enjoa, fica descartável. E se a Cláudia não acha o Douglas normal, o Douglas vai encontrar alguém que ache o Douglas normal.

Ela começa a chorar.

- Eu não queria que tudo terminasse assim. A gente se dá tão bem em tudo. Olha só. Um homem carinhoso, bonito, inteligente, companheiro...não entendo porque não pode mudar só este detalhe. Lembra da terapia? Quem sabe a gente tenta de novo?
- A terapia só serve para quem tem problemas. E o Douglas não considera seu modo de falar um problema. 
- Se você ainda não fosse comunicativo. Mas esta mania de conversar com todo mundo...
- Sim, o Douglas sabe disto...mas é o jeito dele! As pessoas gostam, riem!
- Douglas...acho que faltam poucos minutos para nós terminarmos nosso namoro de três anos. Por favor...presta atenção no que eu vou falar!
- Ã...
- Quantos amigos você tem? Eu digo...amigos de verdade...
-  Aaahhhh...é pra machucar? A Cláudia sabe que o Douglas não tem amigos...
 - E por quê?
- Porque o Luiz Antônio e a Nilza mudaram muito de cidades...
- Não...não mente! Pai e mãe não têm nada a ver com isto...todo mundo tem vergonha de ti..
 - Aaahhhh...então é pra machucar...
- Amooor...eu estou tentando te salvar...não consegue mudar por mim, por nós, pelos filhos que a gente pensa em ter?
- E a Cláudia não consegue tolerar o Douglas pelo Douglas, pelo Douglas e pela Cláudia, pelos filhos que pensam em ter?
- É...não adianta...vai levar promessa até sua mãe morrer?
 - Sim...o Douglas jurou ...é irreversível...
- Mas foi na quarta série...faz trinta anos...
- A Nilza humilhou o Douglas na frente de toda a turma e faz 30 anos que o Douglas mostra pra Nilza que a Nilza desgraçou a vida do filho por algo que não foi e não é necessário...
 - Meu amoooor....foi só uma prova....ela era a professora...ela tava fazendo o trabalho dela....ela já sofreu demais por isto...ela tá velhinha...deixa ela morrer em paz...
- Não...não...não tenta convencer o Douglas a esta altura do campeonato...fazer o próprio filho repetir de ano por causa de três pronomes pessoais trocados numa prova não tem justificativa...desde aquele dia, o Douglas prometeu que nunca mais usaria um pronome pessoal enquanto sua mãe vivesse. Nem caso reto. Nem caso oblíquo.
- Isto é orgulho...
- Isto é para mostrar também que a educação precisa ser revista. É um protesto individual. É uma maneira de mostrar à Nilza e ao mundo que um mundo sem pronome pessoal é possível....todo mundo tem uma causa...e esta é a causa da minha vida...
- Há sete anos que eu espero ouvir um “eu te amo” e só ouço “o Douglas ama a Cláudia”. Tem noção de como isto machuca....
- O Douglas tem noção. E pede compreensão. O Douglas ama a Cláudia!!! Ama demais!!!!

Ela já chora compulsivamente. Pede licença e vai ao banheiro. Quando retorna depois de alguns minutos, a mesa está vazia. Olha pelo bar. Nem sinal do Douglas. É quando o vê saindo do banheiro guardando o telefone no bolso. Douglas chora compulsivamente enquanto caminha em direção à Cláudia. Oferece um abraço. Ela aceita . Ficam abraçados. Ambos choram muito. Com os lábios no ouvido dela, ele declara-se livre da prisão pronominal:

- EU TE AMO. AMO-TE. AMO-LHE. EU AMO-NOS. EU AMO NÓS. EU AMO...

Os dois ficam abraçados. Choram juntos. Um bebe da lágrima do outro. Cláudia completa.

- Amoooor....eu tambééééém te amo...fala de novo?

Douglas traz as duas mãos de Cláudia junto de sua boca. As beija. Mira o fundo dos olhos da namorada e diz:

- EU TE AMO. AMO-TE. AMO-LHE. EU AMO-NOS. EU AMO NÓS. EU AMO...e queria te dizer, que apesar de tudo...eu também amava ela. Eu a amava. Eu amava-a. Eu nunca deixei de amá-la. Eu juro.
- Douglas...o que é isto? O que tá acontecendo, amor?
- Te explico no caminho. Vem comigo...

Partiram ao DML. Dona Nilza fora atropelada. Não resistiu. 

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