quarta-feira, 11 de abril de 2012

Pai, o que é o amor?

 Fim de tarde. Pai e filho na sala.

- Pai!
- Fala, filho!
- O quêqui é o amor?
- O que?
- Amor...
- Amooor? – retruca, enquanto tenta ganhar tempo.
- É...amor!!!
- Ah, filho, depende! 
- Depende do quêqui?
- É que tem vários tipos de amor!
- Como assim?
- Tem o amor de pai, de mãe, de amigo, de namorados, o amor que a gente sente pelos bichos.
- Tá...mas pra ti, pai...tanto faz o tipo, o quêqui é o amor?
- Bom, filho, o amor é uma coisa muito complicada.
- Por quêqui?
- Por que é, filho. Ainda mais pra uma criança de oito anos.
- Mas eu já tenho nove...
- É...mas pra quem tem nove também.
- Mas eu queria saber...
- Se queria, então é porque não quer mais...
- Ã?
- Nada filho...nada...me diz uma coisa. Por que falar disto agora?  
- Nada...só me deu vontade!
- Por falar em amor, a mãe é que não vai amar quando chegar e te ver sem banho tomado. Vai pro chuveiro!
- Paaaai...me escuta!
- Tô escutando filho...
- A minha colega Lucinha disse que os meninos não conhecem o amor. Só as meninas é que sabem.
- Ela disse isto?
- Sim...disse.
- Coisa de menina, filho! Aposto que ela ouviu a mãe dela dizer isto. E a mãe da Lucinha é uma chata. Aliás, diz pra Lucinha que se ela ficar falando desse jeito, vai ser igual à mãe dela ou vai ficar encalhada.  
- Encalhada?
- É. Vai ficar sozinha. Não vai arranjar namorado.  
- Mas é verdade?
- O que?
- Que só as meninas sabem o que é o amor.
- Não, filho! Isto é tudo mentira. As mulheres acham que sabem o que é o amor. Elas acham que sabem tudo. Elas acham até que sabem dirigir.
- Então elas não sabem?
- O que? Dirigir? Não...não sabem.
- Nãããããoooo...tô falando do amor. Elas também não sabem o quêqui é o amor?
- Não, filho. Não é isto. Olha só...
- Ã...
- Elas, as mulheres, sabem sim o que é o amor. E os homens também sabem. Só que as mulheres e os homens enxergam o amor de jeitos diferentes. O amor pode ser o mesmo, mas nunca vai ser igual para uma mulher e um homem. 
- Como assim?
- Ai filho...tá...deu...chega...isto é muito complicado. Acho melhor esperar a mamãe chegar. Daí ela fala o que ela acha que é amor e eu falo o que eu acho que é amor. Assim, tu fica sabendo o que é o amor para as mulheres e para os homens. Agora vai pro banho!
- Tá, eu vou. Mas então me diz só a tua parte agora, pai! Diz o que tu acha que é.
- É o que? –
- O amooooor, pai!

O pai suspira.

- Tá bom...
- Isto...fala...
- Bom, o pai acha que o amor é...
- ...um gostar que não acaba?
- Isto, filho, perfeito.
- É mesmo?
- Sim...sempre achei isto. Agora já pro banho...
- Sabe que eu tava em dúvida, pai...
- Dúvida do que, filho? 
- Se o amor era um gostar gigante ou um gostar que não acaba.
- Ah é? – diz o pai, já assustado.
- Ã rã.
- E porque o amor não é um gostar gigante e é um gostar que não acaba?
- Ah, pai...sei lá. Acho que quando a gente ama uma coisa ou alguém, tanto faz o tamanho do gostar, né. A gente gosta, gosta, gosta...e não para de gostar. Às vezes é um gostar pequeno. Às vezes é um gostar grande. Mas quando a gente ama, a gente sempre gosta. Até tenta, mas não consegue parar de gostar...
- É...filho...isto mesmo..
- E é meio que assim ó...
- Ã...
- Se eu tenho que ficar de castigo, eu te gosto menos, mas eu não deixo de te gostar...
- É?
- É...e se eu te deixo triste, tu também não deixa de gostar de mim, né?
- Claro que não, filho...o pai te ama.
- Viu? Viu como o amor é um gostar que não acaba.  A gente machuca as pessoas, mas elas continuam gostando da gente. E elas nos machucam, mas a gente continua gostando delas.  
- Tá certo, filho! É isto aí. O amor é um gostar que não acaba.
- Mas sabe, pai, eu tava pensando também...
- Tá, filho...é bem legal a gente pensar...mas agora chega. Vai já pro banho. A mãe já tá chegando.
- Peraí...só mais esta...
- Fiiiiiilho!!!!
- Paaaaai.....
- Tá...fala! Mas é a última.
-  Se o amar é um gostar que nunca acaba, como é que as pessoas dizem que deixam de amar?
- Pois é, filho...eu disse que o assunto era complicado...isto nem o pai sabe...agora vai pro banho...
-  Paaai...
- O que, filho? O que?
- Eu acho que se é verdade que as pessoas deixam de amar, isto só acontece quando gente fica grande, né?
-  É...pode ser!
-  Olha só. Quando vocês grandes sabem que uma pessoa tem um amor destes de gostar bastante, ficam só fazendo coisas para as pessoas gostarem menos. E quando veem que a pessoa fica com um amor destes de gostar pequeno, daí vão fazer coisas pras pessoas gostarem bastante de novo.
- É filho...pode ser!
- E daí, às vezes, o gostar fica tão pequeno, que desaparece dentro do coração e as pessoas não encontram mais...
- É...filho...pode ser...mas agora vai pro banho...que o gostar da mamãe vai ficar minúsculo quando ela chegar e te ver sem banho tomado!
- E assim óóó...
- Filho, agora chega...prooooooooooo baaaaaaaaaaanho! Vou falar com a tua professora. Isto tá demais...já chega! O que tão ensinando nestas escolas? Eu não vou ter um filho emo. Não vou. Aliás...nem sei se falo com a tua professora ou com aquela chata da mãe da Lucinha...olha se isto é assunto pra um guri de nove anos.
- Viu só...
- Viu o que?
- Diz que me ama e não quer falar de amor comigo.
- Filhoooooooo...
- Tá...tô indo!

O filho vai pro banho. O pai tenta retomar o jornal. Não consegue. Fica pensando no poder de persuasão das crianças. Fica pensando que sabe menos de amor do que o filho. Fica pensando nos tempos de adolescência, juventude, namoros e no próprio casamento. Fica pensando quais são as coisas da vida pelas quais tem um gostar que não acaba. Fica pensando no que realmente ama. Chega à conclusão que é feliz. Que realmente ama muito do que tem. Ama o filho. Ama a esposa. Ama o trabalho. Ama onde vive. Ama a vida que tem. O devaneio é interrompido por pelo barulho na porta da sala. É a esposa. Vai até ela:

- Oi!
- Oi!

Ele a segue até a cozinha, onde ela deixa as compras sobre a mesa. Então pergunta:  

- Querida...pra ti o que é o amor?
- Amor?
- É...amor!
- Ai, amor pode ser várias coisas...
- É? Tipo o que?
- Acho que amor, neste instante, é o que eu preciso ter para não te mandar à merda. Ooooora, francamente! Dia de chuva, fica em casa o dia todo, de férias e ainda tem a cara de pau de me ligar pra passar no supermercado porque acabou a cerveja. E agora vem falar de amor?
- É, tá certo! – diz ele, enquanto amassa a flor retirada do vaso da sala que mantinha às costas e pensa que é hora de tornar o gostar da esposa grande de novo antes que fique pequeno demais. 

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