domingo, 1 de abril de 2012

Por um mundo com mais sofrimento


É hábito moderno manter vergonhas vestidas de orgulhos. O cinismo interno vence a constrangedora verdade pessoal numa negação consentida e constrangida do exercício do livre arbítrio. Quero, mas não devo. Preciso, mas não devo.  Devo, mas não posso. Azar. A auto-sinceridade que espere a próxima existência.     

E das múltiplas vergonhas travestidas de orgulho, a mais épica é a alegria constante. É coisa do nosso tempo obrigar a tristeza camuflar-se de felicidade. É dever atual ostentar sorrisos externos independente das lágrimas internas. Ninguém mais sofre. O sofrimento que sempre foi uma das matérias-primas para evolução do ser humano agora está obsoleto. A cultura da excelência, da qualidade, da competitividade condenou o sofrimento à masmorra. É preciso produzir profissionalmente, sentimentalmente, afetivamente, familiarmente, amorosamente, educacionalmente.  

E esta ausência de sofrimento é um dos dínamos que movimenta muitos dos dilemas pessoais, que tornam-se coletivos. É uma questão de lógica. Se não há sofrimento, não há felicidade, porque ambos são complementares. Só sabe rir quem sabe chorar. Só agradece o alívio quem já encarou a angústia. Só reconhece a companhia quem já conheceu a solidão. Querer ser feliz sem ter sofrido é o mesmo que querer escrever sem saber ler. O padecimento é uma espécie de personal trainer das nossas emoções. As deixa mais fortes, resistentes, flexíveis para o trabalho, o amor, as amizades.  

Então, a consequência imediata do sofrimento é a cultura do mais ou menos. Mais ou menos feliz no trabalho. Mais ou menos feliz no namoro. Mais ou menos feliz com a casa. Mais ou menos feliz com os filhos. Mais ou menos feliz com a vida. Nos relacionamentos, por exemplo, é lugar comum ouvir as pessoas dizerem que não querem se envolver para não se incomodar. O incomodar-se, no caso, é sofrer. E é óbvio que sofrer não é simples. Sofrer é admitir fraquezas. Sofrer é deixar de mentir pra si mesmo. Sofrer é conversar consigo mesmo. É admitir defeitos, que podem ser virtudes. É reavaliar as virtudes, que podem ser defeitos. É ter noção da vulnerabilidade. É exercitar a humildade.  É reconhecer-se humano. E abraçar-se a todas as culpas para poder livrar-se das culpas. Sofrer é uma arte. Sofrer é...sofrer. O sofrimento tem paladar amargo. Quem já sofreu sabe que não é fácil, mas compensa. Até porque depois de um sofrimento profundo, todos os outros problemas passam a ser menores.

Sofrer é também, o oposto de lamentar. Quem sofre, chora. Quem não se permite sofrer, choraminga, lamenta, externa todas as suas lamúrias porque eleva cada frustração a sofrimento. E neste sofrer sem sofrer está, em partes, a explicação do porquê de certas pessoas serem cansativas. Ficar do lado de alguém que cultiva lamúrias é como ter a felicidade furtada. Quem choraminga alimenta-se emocionalmente das migalhas de quem já se permitiu sofrer e é feliz. Quem lamenta tem preguiça de sofrer. E consequentemente, preguiça de ser feliz.

Por isto, não raro, quem lamenta recorre à ajuda da medicina. É mais simples. Ali, sob o arco-íris bicolor de tarjas vermelhas e pretas, sente-se acolhido pela felicidade em cápsulas. Felicidade comprada, mas não adquirida. Felicidade da qual se tem a posse, mas não a propriedade. Felicidade sintética. Felicidade artificial. É uma felicidade que não é feliz. É uma felicidade que é alegre. É uma felicidade que sonha ser feliz.

Lógico que não é gostoso sofrer. E também não é errado usar a tecnologia a favor. Se há morfina emocional, por que não usá-la? Mas que seja para o sofrimento de fato. Até porque quem sofre não se importa em sofrer. Sabe que é uma situação transitória, temporária. Não existe sofrimento eterno. Não existe porque quem sofre sempre busca e encontra uma solução, por ímpeto ou por não aguentar mais viver a dor do sofrimento. Sim, há sofrimento que chega a desespero. Mas todo sofrimento vem e passa. Sempre. Sofrimento eterno é lamento. Não se trata de dogma religioso. É uma questão humana. Raro é o sofrimento que não possa gerar glória ou, pelo menos, redenção. Gera traumas? Sim, gera. Mas traumas que são pontes a novos mundos.

Então, que se cultive a felicidade. Que se tenha paz. Existe felicidade sem sofrimento. Mas não existe sofrimento que não possa gerar felicidade, por menor que ela seja. É a felicidade de quem sabe viver. É a felicidade de quem sabe, aceita e agradece que não há mal que sempre dure e nem bem que nunca acabe.  

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