segunda-feira, 16 de abril de 2012

Sobre o saldo dos relacionamentos


Acho que mesmo que não queira, saiba ou perceba, todo ser humano tem uma espécie de software interno que contabiliza a vida. É como um Excel pessoal, onde computamos, guardamos e analisamos informações sobre tudo, principalmente amor, trabalho, amizades, orgulhos e vergonhas. Os românticos gostam de salvar estes arquivos no coração. Os céticos, no cérebro. Independente disto, é fato que de todas estas planilhas que temos conosco, possivelmente a mais complexa seja aquela em que armazenamos as informações referentes a cada pessoa com quem convivemos.

A tabela fictícia ficaria bem simples, mais ou menos assim: cada pessoa é uma linha e há pra ela duas colunas. A primeira que fazemos por cada indivíduo e na segunda, o que é feito a nós. Parece lógico e frio, mas é assim. Todo mundo tem esta base de dados guardada dentro de si. O que fazemos com estas informações é que nos difere na construção de relações humanas saudáveis ou doentias, efêmeras ou duradouras, normais ou estranhas, intensas ou frias.   


Assim como em todo levantamento estatístico, os resultados deste nosso Excel interno só farão sentido se a base de dados for alimentada com exatidão. É por isto que dependemos de variáveis como afinidade, vínculo, necessidade, poder, entre outras, para criar as fórmulas que vão determinar ao fim se tal relação nos é boa, ruim, necessária, tolerável, importante, frívola ou mesmo descartável.    

Neste sentido, as pessoas de personalidade mais afável são aquelas que optam por não alimentar as estas tabelas a todo instante, com fatos de menor impacto emocional.  Guardam em suas marcações só os grandes atos praticados ou recebidos, seja para o mal ou para o bem e optam por acessar as planilhas só quando é necessário. Geralmente o fazem só em caso de emergência, diante de alguma decisão grave.

Já os rancorosos geralmente são aqueles que anotam tudo. Uma palavra mal colocada por um amigo, cônjuge ou colega já fica ali guardada para um momento de acerto de contas. Normalmente são estes, mais hostis, que até alteram o banco de dados a seu favor. Cada ato maléfico recebido ou benéfico praticado é arquivado em letras maiúsculas e grifado. Já as ações maléficas cometidas ou benéficas auferidas ganham letras minúsculas, ou por vezes, são até omitidas.

A partir disto não é errado pensar que nos relacionamentos a dois, a maneira como cada um do casal preenche a sua planilha em relação ao outro talvez seja o grande segredo da estabilidade numa relação. Salvo raras exceções, os casais mais estáveis que eu conheço têm a mesma maneira de preencher suas tabelas, tanto na frequência com que anotam, como no conteúdo que usam em cada uma das colunas do que foi feito e recebido do outro.  

Lógico que o amor, a empatia, o carinho, o afeto e o convívio fazem com que, principalmente no início da história, sejamos muito generosos no momento de inserir os dados referentes à outra parte. Muitas vezes, mesmo cientes de que estamos mentindo a nós mesmos, evidenciamos em negrito todos os atos positivos do outro e deixamos de assinalar aqueles fatos que não nos agradam tanto. E assim, deslumbrados, ficamos consultando a nossa planilha a todo instante, vendo como a outra pessoa é especial, a coluna o nosso relacionamento é saudável e o saldo da relação é extremamente positivo.

Não se trata de uma visão pessimista da relação a dois. Pelo contrário. É uma visão até romântica de que é preciso ser sincero com a gente mesmo para que o enredo possa fluir naturalmente. É a partir desta coerência que cada um vai ter a consciência dos erros ou gafes cometidos e dos acertos e boas ações praticadas e ver se o saldo do relacionamento é positivo ou negativo. Se vale ou não vale à pena. Se aqueles atos que não nos agradam podem ser compensados pelos que nos encantam e vice-versa.

Por fim, fique claro que as planilhas não significam um relacionamento lógico, frio e calculista. Não é o toma lá, da cá. Ninguém quer ou busca isto. Normalmente quem gosta, adora e ama usa seu banco de dados pra conhecer seus limites. O gostar, o adorar e o amar, dentre tantas coisas que são, são também um teste diário da nossa capacidade de doação e tolerância com o outro. Quem gosta, adora e ama, quer pontuar, quer que o saldo esteja positivo, mas nunca manipula os dados. Quer o nome grifado, mas por mérito. Não por trapaça. Aliás, se não for pra ser assim, com saldo positivo, a planilha não tem nem razão de existir. 

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