quarta-feira, 25 de abril de 2012

Torradinhas, tolerância e teimosia


Um casal no café da manhã. Ela bebe suco de laranja. Ele, café. Ela come uma fruta. Ele, torradinhas com geleia.  Ela pergunta:

- Que horas é o médico?

Silêncio.

- Amooor...
- Ã?
-  Que horas é teu médico?
- Às nove.
- Vai jogar futebol hoje?

Outro silêncio.

Ela surta. Retira o pacote de torradinhas da frente dele e vai em marcha até a lixeira,  onde deposita a embalagem.  Ele não entende nada.  

- Que é isto?
-  Chega desta merda aqui em casa...
- Mas o que tá acontecendo?
-Não quero mais saber desta porcaria...
- Que porcaria?
- Estas torradinhas de pacote...
- Como é que é?
- É...cansei. Chega. Não quero mais. 
- Amor...peloamordedeus...o que te deu?
- E ainda pergunta?
- Não tô entendendo mais nada.
- Nem tenta.
- Implicância com as torradinhas?
- Não é implicância. Estas torradinhas de pacote me dão nos nervos...elas tão me matando.
- Amor...olha o que tu tá falando...são só torradinhas....
- Sim! A partir de hoje estas torradinhas não entram mais aqui em casa. Tá avisado.
- Era só o que me faltava.
- Experimenta pra ver.
- Amor, o que tá acontecendo? Posso saber o motivo desta declaração de guerra às torradinhas de pacote?
- Já reparou o barulho que elas fazem? A gente não consegue conversar. Eu pergunto, tu não responde. Fico falando com a parede.
- Huuummmm...então é  a crocância da torradinha...
- Sim...é! A gente quase não tem tempo junto. E quando quero falar contigo...esta porcaria de torradinha...parece uma escola de samba dentro da tua boca.
- E se seu quiser continuar comendo torradinha?
- Não tem “se”. É assunto encerrado. Acabou a era das torradinhas aqui em casa. Ou as torradinhas ou eu. 
- É?
- É.
- Ok.

Nenhum dos dois cedeu. Ele decidiu, que por uma semana, tomaria o café da manhã naquela padaria da esquina de casa. Em três dias, criou um ritual. Sentava-se religiosamente naquele banco à ponta do balcão, de costas à entrada. Em silêncio, bebia café, lia o jornal e, claro, comia as torradinhas. Dentro desta nova introspecção matinal diária, criou até um apreço ao som das torradinhas esmagadas por sua dentição. Antes da discussão com a esposa, nunca reparara o imenso barulho que realmente fazem quando são esfaceladas por caninos, molares e pré-molares. Achou até engraçado. Algumas vezes, até fechava os olhos para concentrar-se no ruído da trituração dentro, que mudava de timbre e volume dentro da caixa craniana conforme a força que ele empregava no masseter.

 E foi assim, numa de suas imersões ao mundo sonoro da mastigação das torradinhas que ele morreu ao levantar-se para ir ao banheiro, sem perceber o assalto que iniciara no estabelecimento, segundos antes, às suas costas. Escutou em meio ao barulho das torradinhas que tinha à boca, apenas um grito e dois estampidos. Na sequência, duas ardências agudas às costas e a sensação de uma enorme labareda chamuscando a parte interna do peito. Logo caiu ao chão e viu seu sangue criar uma sanga vermelha e morna pelo chão entre as mesas cadeiras. E ali, antes de morrer, pensou na esposa. Lembrou a briga deles em relação às torradinhas. Agonizando, tentava concluir se sua morte ali, daquele jeito, tinha causa na intolerância dela ou na teimosia dele em relação às torradinhas. Não teve tempo de concluir nem de terminar a mastigação. 


Despediu-se do mundo com a boca suja de farelo. 

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