quarta-feira, 23 de maio de 2012

O segredo da professora


As aulas de história daquela professora eram uma espécie de maçonaria. Ninguém além dela e dos alunos sabia o que acontecia o que se passava naqueles minutos de ensino. Nem pais, nem direção, nem outros alunos. Era um pacto. Um pacto de silêncio. E ninguém rompia o pacto.  

A única certeza que os de fora tinham era a de que aquela professora de história tinha um método diferente de ensino. E que funcionava. Era sagrado que todos os alunos alcançassem o grau de excelência nas notas. Todos, sem exceção. E nas avaliações externas, eram muito superiores aos de outras instituições. A cada avaliação externa, a professora de história aumentava seu prestígio.

Quando a escola fora premiada nacionalmente pelo desempenho na disciplina, o clima ficou tenso.  Alguns outros professores consideravam egoísmo da colega guardar o segredo do sucesso. Ameaçaram até fazer greve para tirar a professora da escola. Quando souberam, os alunos enviaram uma carta à direção. Defendiam a professora e avisavam que se isto acontecesse, também entrariam em greve e iriam à imprensa. A eles a professora era intocável. A supervisora pedagógica já não sabia o que fazer.

Então a professora de história chamou a diretora da escola para uma conversa. Queria evitar confusão. Estava disposta a revelar seu método, mas tinha medo das retaliações. Era um sistema controverso, que poria todos os outros professores ainda mais enfurecidos contra ela. 

Negociaram e chegaram a um consenso. A diretora assistiria a uma aula. Se considerasse prudente, o mistério se revelaria.

Chega o dia da aula de amostragem. A diretora assiste e sai da sala em pânico. Os outros professores aguardavam na sala de reuniões. A responsável pela escola foi taxativa:

- Acho melhor deixar tudo como está. Não vamos nos envolver nisto. Cada professor tem seu método.  

A reclamação foi geral.

- É um absurdo!
- Isto é caso de polícia!
- Cadê o MEC? E a práxis pedagógica?
- Ela não tem plano de aula? Eu quero ver os planos de aula dela.

A diretora fez uma votação. Foi derrotada por unanimidade.  Ao final da reunião, ela avisou.

- OK! Estamos numa democracia. O segredo vai ser revelado. Mas eu não quero reclamações depois. Ela tem todos os alunos do colégio do lado dela.

Conforme combinado, foi posta uma filmadora na sala de aula. No dia seguinte, à noite, os outros professores, a direção e os funcionários da escola se reuniram para ver o vídeo. A professora de história estava junto para explicar detalhes necessários. Ao fim do filme, a professora de português nem esperou que a diretora acendesse as luzes  da sala. Vociferou:

- Se esta mulher continuar a ensinar, eu rasgo meu diploma. Isto é um absurdo! Me nego a conviver com uma pessoa que cumprimenta os alunos com “Bom dia, falcatruas”, que chama José Bonifácio de pinta , Eça de Queiroz de mano,  que diz que “os escravocratas se fuderam quando a princesa Isabel pirou o cabeção e assinou a Lei Áurea, dando nos dedos de interesses da  granfinagem da época”, que  faz funk dizendo “desmaio no biscoito. É treze de maio de oitenta e oito”.  Gente, o que é isto?

Todos queriam falar. Todos conversavam entre si. Alguns a favor. A maioria contra. A reunião virou uma grande confusão. . A diretora pediu silêncio.  Não foi atendida. Então professora foi à frente e pediu a palavra. Foi atendida.  

Começou pedindo desculpas e dizendo que nunca impôs seu método. Foi a pressão externa que fez com que revelasse seu sistema de ensino. Então,  explicou que não usava gírias ou palavrões no dia a dia. Que quase todos os seus alunos não usavam gírias ou palavrões em casa. Que quase todos os seus alunos não usam gírias e palavrões nas aulas dos outros professores. Que o pacto que ela tinha com os alunos era justamente de falar a linguagem que os alunos gostam e querem ouvir.  
Mas apenas dentro da sala de aula. E explicou também que era por isto que tinha a proteção e o desempenho deles. Falou que a educação é lúdica. Que não há ensino sem empatia. Que a escolha do canal interfere na transmissão da mensagem. Falou destas coisas que todos sabem. E, ao final, falou que os resultados comprovam que seu método funciona.

Todos ouviram em silêncio. Não houve gírias nem palavrões no discurso. Ao final, deixou aos colegas à vontade para que decidissem seu futuro:

-  Após esta reunião, temos duas opções. A primeira é a minha transferência de escola. Vou recomeçar do zero este mesmo trabalho. A segunda é a seguinte: me ofereço para ajudar cada um de vocês a fazer algo semelhante em cada disciplina. Números, cromossomos, sílabas,  lugares, átomos também geram funk, gírias, risadas e ensino. Fiquem à vontade, sem traumas. Quando decidirem, me avisem.

E saiu da sala.  


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