quinta-feira, 17 de maio de 2012

Mães e sogras


Primeira semana que moram juntos. Ela está de férias. Ele, no trabalho. Ela resolve fazer uma surpresa. E faz. Ele chega. Vai até o quarto. Abre o roupeiro e vê a surpresa. Arregala os olhos.

- Olha sóóóó...

Ela, escorada junto ao lado esquerdo do vão da porta, veste seu sorriso mais largo. Suspira. Curte o momento de glória. Valera à pena lutar contra a sua falta de habilidade.   

- Mas é querida demais! Nossa, amor! Não precisava!
- Me deu vontade...rsrs!
- É?
- É...mas não vai ser sempre, tá! Só que tô assim...tão feliz da gente...morando junto!
- Nossa! Eu nem mereço tudo isto!
- Aiêêê!!! Merece sim! Merece muito mais que isto!
- Não sei nem o que dizer...
- Não diz nada...morar junto é cuidar um do outro. E eu quero cuidar de ti.
- Aaaahhh...eu também quero cuidar de ti. Vem cá... me dá um beijo!

Eles se beijam.

Então ela explica que não tinha nada para fazer e resolveu passar e reorganizar todas as roupas dele. Organizou por cor e colocou à altura dos olhos as peças que ele mais usa. Fez o mesmo com as roupas de verão, logo abaixo. Enquanto ela fala, ele pega uma das camisetas e coloca cuidadosamente sobre a cama. Fica olhando. 

- Amor...
- Fala, lindo!
- Olha só...
- Ã...
- A minha mãe sempre passa este tipo de roupa com quatro dedos de cada lado da gola. Aqui só tão dois.

Silêncio. 

- É?
- É! Eu também acho que fica melhor. Não marca tanto os ombros!
- Hummm...é?
- É...fica bem melhor com quatro dedos.
- Hummm...
- Eu vou pedir pra mãe vir até aqui. Daí ela mostra pra ti como se faz.

Silêncio. Ela troca o lado da escora sob o vão da porta. Ele continua inspecionando as prateleiras. 

- As calças também, amor! Pode dobrar diferente.
- Huuummm...tá!
- É, vou aproveitar tuas férias e pedir pra mãe passar uma tarde aqui contigo. Ela vai adorar.

Silêncio. Ele olha pra ela, que olha pra ele.

- Que foi, amor?
- Nada...
- Claro que tem alguma coisa...fala...
- Não...não tem nada!
- Claro que tem.
- Só tô pensando...
- Pensando?
- É...
- Pensando..
- Pensando...porque vós não casastes com vossa mãe...
- Ôôôô amooor!!!
- E tava pensando também porque ela usa esta medida de quatro dedos...
- Amoooor...que é isto? Olha a baixaria...
- E tava pensando também que a gente vai fazer o seguinte...
- Ã..
- A partir de hoje, eu NUNCA MAIS...passo e dobro...QUALQUER peça de roupa tua.
- Mas o que é isto? A minha mãe vem aqui e te ensina. É tão simples!
- PARA COM ESTA MERDA. ESQUECE A TUA MÃÃÃÃÃEEEEEEEE!!!!!
- Não grita! Olha a vizinhança!
- Eu não sabia deste teu lado mimado...
- Não é mimo! É hábito! Minha mãe me acostumou assim. E funciona. 
- Meeeeu Deus!
- Que foi...
- Nada...
- Quem nada é peixe...fala!
- Se eu ouvir mais uma vez a palavra mãe...eu vou embora!
- Não quer mais cuidar de mim?
- Não...não quero!!!
- Ahhh...não quer?
- Não...a partir de hoje, só te aproveito.
- Ã?
- Sim...tá definido: tua mãe cuida de ti e eu te aproveito!
- Ah tá...
- Sim...tua mãe lava e passa, cozinha nos fins de semana...enfim, cuida de ti do jeito que tu já tá acostumado...

Ele suspira.

- E eu...bom...eu...transo, olho filme, viajo, fico no sofá, vou jantar fora...só coisas que tua mãe não possa fazer. Não quero invadir o território dela.
- Amooor...

Então ela vai até o roupeiro em passos calmos. Para. Olha as peças alinhadas. Pensa na tarde de férias perdida. E retira todas as roupas de cada vão do armário. Põe ao chão, com calma. Por dentro ela é Hitler. Por fora ela é Gandhi. Ele assiste e comenta: 

- Amoooor....que é isto?
- Tá tudo errado! Só com dois dedos de cada lado da gola.
- Não faz assim..
- É melhor. Daí ela não precisa tirar tudo do roupeiro. Já facilito a vida da mulher dos quatro dedos.
- Amor...a gente tá começando mal. 
- É? Acho que não...
- Minha mãe vai implicar contigo.
- Ótimo! Daí a gente convive menos com ela e sobra mais tempo pra nós.
- Eu desisto...
- De mim?
- Não! Tô desistindo de te fazer gostar da minha mãe. Nunca imaginei que tivesse este ódio dela.  Ela nunca fez nada de mal pra ti. 

Ela, no caso, poderia ser ele. E ele, no caso, poderia ser ela. Tanto faz. O fato é que quando existem, é mais ou menos neste cenário que nasce tanto a antipatia a uma sogra como a antipatia de uma sogra: na ausência dela. 

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