domingo, 24 de junho de 2012

O ecossistema do coração

À literatura o amor é um ser vivo que tem como habitat o coração. É ali que nasce, cresce, reproduz e envelhece. A diferença é que por vezes nunca morre. O mundo das letras nunca diz que o amor mora no cérebro, onde são geradas as nossas emoções. Talvez opte por este formato porque no mundo subjetivo das formas narrativas, o amor é tão necessário à vida quanto o próprio coração. Metaforicamente, quem não tem amor vive tanto quanto quem não tem um coração. Penso, logo existo. Sinto, logo vivo.

Mas não é só isto.

O amor é de fato muito mais coração do que cérebro. O amor não é exato ou lógico como as sinapses intracranianas, estático como nossa massa encefálica. O amor é movimento. Movimento que oscila como o ritmo e a força das pulsações entre átrios e ventrículos. O amor é tanto um berro silencioso diante de algo amado ou um silêncio barulhento na ausência de algo para amar. É por isto que o coração grita sempre por satisfação ou revolta. Grita como se quisesse sair para ver o que está acontecendo adiante da pele.

E talvez seja por isto que todo coração é um pouco perturbado. Pelo menos um pouco. Do contrário, não é coração. É só um músculo jorrando sangue. E todo coração pulsa de acordo com o comportamento do amor que nele habita. É como se fosse um ecossistema. Amores artificiais normalmente fazem mal ao coração. Amores orgânicos, mesmo quando não definitivos, acabam por nutrir nosso ambiente cardíaco. Só que há corações com experiências amorosas tão intensas, que acabam influenciando negativamente os amores que neles surgem. De uma perturbação necessária, estes amores ganham características de síndromes, transtornos, complexos ou distúrbios contínuos, com características humanas.

Um exemplo é o amor esquizofrênico, que ama o que não existe. Enxerga felicidade onde não há. Diz o que não sente. Comenta o que não quer falar. Diz que entende o que não compreende. E principalmente ouve o que não foi dito. Cada declaração é interpretada à parte. Trata a paixão com amor. Trata o instinto como amor. Trata a carência como amor. Trata o desespero como amor. E entre delírios afáveis ou agressivos, este amor vive histórias que nunca existiram na realidade. São pseudo-namoros, pseudo-casamentos, em que a dedicação é muito maior do que o sentimento.

Outro tipo é o amor autista. Ao contrário das pessoas, nenhum amor nasce autista, mas torna-se. Filho de um trauma, este amor prefere amar apenas o pouco que permite que adentre o próprio mundo. Age por segurança. É mais seguro amar apenas a si do que também aos outros. Decepções, desilusões e outros tantos riscos que não quer correr. E assim, a capacidade de comunicação do amor autista dilui-se, a socialização dificulta-se e responder com naturalidade ao ambiente de qualquer relacionamento com vínculo afetivo ganha status de drama. A linguagem sentimental do amor autista é quase nula. Tudo são códigos e interpretações complexas que só a ele faz sentido. Um único padrão de comportamento, o dele, é o definitivo. E amores autistas, neste caso, igualmente aos humanos autistas, precisam de encorajamento e apoio moral na busca por uma existência independente e sociável.

Fato é que todo amor sabe que está em sua gênese a missão de manter saudável e em paz o coração que habita. Alguns, com suas síndromes, complexos ou transtornos, tentam fazer isto de maneira atravessada. Por isto, falecem antes do tempo, muitas vezes, fazendo mais mal do que bem a si e ao ecossistema do coração em que vivem.

E por coração saudável entenda-se aquele coração que pulsa mais forte só por opção. Por coração doente, entenda-se o coração que pulsa mais forte por obrigação. E coração morto é aquele que nem tem mais vontade de pulsar. Coração morto é aquele que só bate.


2 comentários:

  1. Muito BOM!! Nada como começar uma segunda-feira nublada, lendo belas palavras.

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  2. Muito obrigado, Dani! Lisonjeado! Bj e boa semana!

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