domingo, 3 de junho de 2012

Pessoas que são drogas


A pessoa é uma droga quando oferece alívio imediato e depressão contínua. Depressão que não é de saudade. É de lacuna, indiferença. A pessoa é uma droga quando oferece pequenas alegrias para interromper a tristeza constante que ela mesma causa. Quem se envolve com pessoas que são drogas não sabe explicar bem como acontece. Só sabe que acontece. Drogas humanas que são semelhantes a drogas sintéticas. Cria-se uma dependência inexplicável. A vítima entrega a paz e a felicidade que não têm para manter algo que sabe que prejudica.

Eu tenho uma amiga que vive um drama assim. Há anos. Não chegou a ser extorquida financeiramente. Mas confessa que tem medo. Não sabe como reagiria. Ela sabe que, em princípio, ele só queria diversão. E ele continua a querer diversão. Ele sempre só quis diversão. 


Houve períodos em que o via três, até quatro vezes por semana. Houve períodos em que ela conseguiu ficar meses sem ver o sujeito. Ela sabe que a luta é diária. Um dia após o outro para não responder uma mensagem, não desbloquear o MSN, não atender o telefone. Mas chega um momento em que cede. Ela sempre cede. Cede porque ele a cerca. Sabe os lugares que ela frequenta, do que ela gosta, o supermercado em que ela vai. Nunca usou, usa ou usará a força física. Só a violência psicológica e afetiva.  

Ela, bonita, com ótimo emprego, excelente salário, família estruturada, cede a alguém de quem já teve vergonha. Hoje ela já não tem mais. Amigos e amigas mais próximos que conhecem o rapaz se constrangem por ela. Não pela aparência, mas pela índole. O sujeito tem orgulho de ser malandro, de levar vantagem. E deixa isto claro nos gestos, na fala, nas palavras, assim como sempre deixou evidente a ela.

Ele não é um cara sério que não quer nada sério. Mas age como se fosse e quisesse. Envia flores, lembra das datas especiais, compartilha alguns problemas. Mas não quer nada sério. Ele sabe que ela sonha. E é nos sonhos dela que ele trabalha. Tal uma droga, oferece uma realidade paralela. Quando percebe que ela está confortável, se afasta. É para que ela fique na abstinência, que sinta falta. E ela sente. E cede. Ela, balzaquiana, com a ampulheta da maternidade na fase derradeira não consegue ir adiante. Quer alguém. Quer ser mãe. Quer ter uma família. Mas não consegue. Fica presa ao seu vício. Sabe que é errado. Sabe que não deve. Mas faz. Não sabe se é porque quer ou porque precisa. Não sabe nada. Não tem direção. Fica à deriva.

Quando conhece um outro alguém, se envolve. Mas a droga humana dá um jeito de aparecer. Aumenta o refino e pressão por uma última dose, uma despedida. Ou quem sabe um recomeço, diferente. Ele diz que ele merece, que ela merece. Ele diz que quer tentar mudar. Óbvio, ela cede. Pronto. Um novo ciclo se inicia, na mesma droga, com as mesmas consequências, talvez mais nefastas. Não só minha amiga. Não só mulheres. Há drogas masculinas e femininas. Há vítimas masculinas e femininas. Minha amiga é só o exemplo.  Há até “amigos” que são drogas, parentes que são drogas.

 Eu nunca passei por uma situação do gênero. Escrevo a partir do que ouço e vejo. E não que seja uma certeza, mas pelo que percebo deste tipo de história, nomalmente ela surge quase sempre muito mais por fragilidade das vítimas do que por mérito das pessoas que são drogas. Um período de carência afetiva, o fim de um relacionamento, uma decepção, uma frustração, uma mágoa normalmente são a porta de entrada para as pessoas que são drogas.

E tal como no caso das substâncias naturais ou sintéticas, trata-se de algo muito particular a reação individual a uma situação destas. Normalmente, o tema é discutido com amigos próximos e membros da família. Em outros, terapia. Em situações avançadas, até medicamentos para livrar-se do vício. A situação é traumática. Sim, mesmo depois da cura, a sombra do acontecido machuca. A lembrança é uma cicatriz.

O melhor ou menos pior deste tipo de história é que normalmente depois que supera uma circunstância do gênero, a pessoa fica mais forte e teoricamente sabe que assim como tudo na vida, as pessoas a que se escolhe para se ter orbitando à volta, precisam de observação, avaliação, referências. E o quanto mais cedo for possível mensurar com se algo ou alguém nos faz mais bem do que mal ou vice-versa será mais fácil evitar uma dependência. O problema, quase sempre nem é mensurar, mas a sinceridade ao mensurar. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário