domingo, 17 de junho de 2012

A teoria do quinto encontro


Acho que raras são as mulheres que em sua solteirice não tenham praticado ou que não pratiquem a teoria feminina exposta no filme Amizade Colorida, em que a personagem estabelece a regra do quinto encontro para ir para a cama com o sujeito.

No filme, assim como na vida real, a teoria não funciona. No filme, assim como na vida real, o sujeito se mostra querido, educado, respeitador, interessado na alma dela e depois do sexo consumado, desaparece parcial ou inteiramente. Ele será o cafajeste, crápula, cachorro e ela a coitada, enganada, sonhadora.

No filme, assim como na vida real, muitas mulheres ainda pensam que é possível amarrar emocionalmente o sujeito para que o sexo do quinto encontro seja só uma consequência natural de um relacionamento que “já existe” a partir do vínculo criado com a rotina de encontros.  A teoria do quinto encontro é mais uma a mostrar que aqueles que usam teorias pra reger a vida, normalmente se dão mal. Teorias são referências. Não são regras.  

Mas no caso da teoria do quinto encontro, não há como dar certo porque homens e mulheres são diferentes. E a teoria do quinto encontro é a visão feminina idealizada de uma história de amor. E se levarmos em conta que a visão masculina de amor é diferente ou que em muitos casos, saiu de férias sem previsão de volta, a situação se torna óbvia: quando a teoria do quinto encontro é posta em prática, homens e mulheres vivem histórias paralelas numa mesma história.

Ela, feliz com o homem que a entende, respeita e não a vê apenas como um pedaço de carne. Realizada, por sentir-se cortejada, elogiada, valorizada. O superego fica amordaçado enquanto o ego e o id fazem show pirotécnico. Enquanto isto, pra ele, decifrá-la passa a ser uma obstinação. 

Ele não sabe se gosta dela, mas fará de tudo para alcançar o centro do labirinto e chegar vivo ao quinto encontro. É a filosofia do ceder pra vencer. No filme, assim como na vida real, a história que seria de amor torna-se uma espécie de guerra em que ela vence as quatro primeiras batalhas e ele a quinta. Ambos resistem, ambos cedem.

E tanto as mulheres quanto os homens sabem que o que acontece no quinto encontro tem um peso grande. É um marco. Mas não é fator decisivo para uma história ir adiante ou não. Homem ou mulher, quando gosta de verdade, salvo alguma experiência ruim ou traumática, está disposto a dar uma segunda chance ao instinto por quem nutriu um afeto acima da média. Até porque é sabido que o que acontece na primeira vez, normalmente, é só uma antessala do instinto.

Em resumo: a teoria do quinto encontro não funciona exatamente por isto. Porque, escoltada pelo instinto dele e pela ternura dela, coloca o sexo numa importância muito além do que realmente tem no início da relação. A satisfação da convivência, a cumplicidade, a  leitura do outro é que faz com que a satisfação venha naturalmente. São poucos os amigos que eu conheço que casaram com a mais devassa que conheceram assim como são poucas as amigas que tenho que se apaixonaram pelo melhor de cama que encontraram. Todo mundo sabe que a intimidade vem com o tempo e que a relação só cresce com o tempo.

 Se a teoria do quinto encontro não é parâmetro por ser  muito feminina, é bem possível que uma teoria do primeiro encontro também não vingasse por representar um conceito totalmente masculino. Mas isto é só teoria sobre teorias.

Fato é que não é o número de vezes que o casal sai sem ir pra cama que vai determinar se a relação vai adiante ou não. Igualam-se no equívoco os homens que pensam que toda mulher que vai pra cama na primeira noite é vagabunda e as mulheres que pensam que todo homem que aguarda a sua decisão pela hora do sexo seja um príncipe encantado. Quem é solteiro já teve gratas surpresas afetivas no primeiro ou segundo encontro e grandes decepções de quintos, sextos e sétimos encontros. E vice-versa.

O sexo é sim uma espécie de ponto de equilíbrio de uma relação duradoura. Se for o peso principal, a história já nasce torta. Se for irrelevante, idem.  Fazer sexo, numa relação, tem que ser algo tão natural quanto conversar, passear, comer, rir, chorar ou ir ao supermercado. E marcar um momento exato para que a naturalidade surja não é algo natural.  

Um comentário:

  1. Esta coisa de marcar data, prazo, é resquício de um comportamento regido pela moral cristã: noiva virgem entrando na igreja, para se manter casada até que a morte separasse o casal...
    Depois que isso deixou de ser padrão de comportamento, as pessoas passaram a ter que decidir, livremente.
    E como é difícil ser livre!

    ResponderExcluir