domingo, 10 de junho de 2012

Torpedos


Complexo ou lógico, todo apelido é analogia e faz sentido. Se não faz, um dia já fez. O apelido é tradução. E apelidar é uma arte. Só o âmago da questão, evidente ou camuflado, é que faz um apelido ser consistente. Há quem tenha o dom de colocar apelidos. São uma espécie de gênios da linguagem. E mesmo que anônimo, acho que um dos nossos maiores heróis linguístico contemporâneos é o cidadão que apelidou as mensagens SMS de torpedo.

Cada celular que vibra é uma embarcação que chacoalha. Aparentemente insignificante, no silêncio do inesperado, sorrateiramente o torpedo chega ao alvo, sempre carregado com ogivas de boas ou más intenções, ótimas ou péssimas notícias. A missão do torpedo não é naufragar. O torpedo é alerta. É aviso de que você está dentro do meu raio de alcance.  

No mundo dos solteiros, o torpedo é arma de sobrevivência. É ataque e contra-ataque. As estratégias são quase militares. Há quem envie poucos, mas carregados de ogivas nucleares. Há quem envie muitos, inofensivos, para vencer a batalha no cansaço. Há quem faça incursões noturnas. Há quem prefira o dia. Há quem faça disparos giratórios para vários alvos. Há quem concentre todo seu potencial num só objetivo.

Fato é que a imagem de alguém com o celular à mão, pensando se manda ou não um torpedo, é um dos ícones desta era. 

Numa geração ansiosa, que não quer ou não pode esperar, o torpedo é o símbolo do imediatismo. Manda-se uma mensagem. O prazo de resposta é breve. Se não é imediata, a cabeça entra em efervescência. Mas o que tá fazendo? Por onde anda? Tá fazendo isto. Tá fazendo aquilo. Tá jogando comigo. É a pressa. É a necessidade. É tempo perdido. Imaginar esta geração do torpedo na era em que os amores eram envelopados pelo correio, em que cultivar a ausência do outro era demonstração de afeto, é imaginar um surto coletivo.

Numa geração que reescreve o conceito de privacidade, o torpedo invade a paz alheia desprovido de constrangimento.  O torpedo tem o status de “não dá nada”. É só pra marcar presença. A distância física absolve da responsabilidade e convida ao desrespeito alheio. O torpedo é o estar junto à distância. A mesma distância que absolve da responsabilidade da presença e condena à solidão disfarçada de autosuficiência. É o desejo surreal de que quatro ou cinco palavras digitalizadas substituam o abraço, o sorriso, o carinho, a voz que a realidade reprime. 

Numa geração que é escrava da brevidade, um punhado de caracteres tem a pretensão de resumir o que se passa pelo coração e pelo cérebro juntos, mas nasce e morre sem exprimir ideias nem sentimentos. O torpedo é breve, efêmero, singelo. É uma abreviação de gostar, querer, comunicar, falar, sentir, odiar, ouvir e outros verbos que desenham as relações humanas desde que a linguagem existe.

Torpedos não deixarão de ser torpedos. E talvez o maior efeito que os torpedos tenham não esteja nas palavras que carregam consigo, mas na angústia e na ansiedade que as pessoas cultivam ou no tempo e energia enquanto miram ou são alvo.

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