segunda-feira, 23 de julho de 2012

Analfabetos emocionais

Ninguém mais se fala. Todo mundo se liga. Ninguém mais se encontra. Todo mundo se conecta. E assim, via Feicebuque, Iscaipe, Emiessiêni, Tuíter e afins, vamos perdendo a conversa olho no olho. E com ela, despede-se de nós aquilo que nos diferencia de todos os outros seres vivos: a leitura emocional. Caminhamos para um futuro tecnologicamente inteligente e emocionalmente ignorante.

Sem nenhum embasamento científico, numa observação puramente pessoal, de quem permanece boa parte do dia conectado, mas não abre mão de uma boa conversa, percebo que é crescente a quantidade de pessoas que se aproximam dum analfabetismo emocional latente. E é exatamente por isto que me permito também pensar que boa parte da precariedade, efemeridade e superficialidade das relações afetivas do nosso tempo é conseqüência das pessoas estarem tornando-se impessoais, dispensando o convívio. 

Atrás de celulares, monitores, tabletes ou noutibúquis, estamos desaprendendo a ler as emoções alheias. E assim, consequentemente, a manifestar as nossas.  Em partes, todo este aparato eletrônico serve de escudo contra as nossas próprias emoções. Hoje, quem já não ouviu de um amigo ou amiga: “daí me olhou dum jeito que eu não sabia o que fazer”. E pelo andar da carruagem, cada vez mais se saberá menos o que dizer.

E talvez a tendência, num longo prazo seja desaprender que todo rosto é um espelho do coração. Que no dicionário universal da linguagem, cada expressão facial é um punhado de palavras resumido no silêncio. E talvez um dia falarão que este dialeto planetário construído ao longo de eras foi tão rico que um dia, no ápice de sua nitidez, os humanos do século XX já foram capazes de perceber a diferença de um sorriso. Vão dizer que havia uma  época em que os humanos sabiam distinguir quando os lábios se afastavam para demonstrar alegria, felicidade, ironia, tristeza, frustração ou resignação. Se hoje existem academias para movimentar os corpos sedentários, não seriam os divãs e consultórios uma espécie de academia para exercitar as emoções ociosas e reprimidas?   

E na singularidade de mais de 7 bilhões de pessoas, cada rosto é uma pátria. Cada face se manifesta com suas particularidades, como se tivesse um sotaque próprio no vocabulário das expressões. O jeito de erguer as sobrancelhas, a intensidade da mordida nos lábios, o tamanho do suspiro ou a inclinação da cabeça. Tudo serve de elementos de leitura.

Aliás, houve um tempo em que não havia ser humano que não se interessasse por querer decifrar o que estava escrito no rosto alheio. Assim sempre foi porque se tratava de uma defesa aos sentimentos negativos e um atalho aos positivos. E é por isto que poucas sensações ainda nos são tão humanas como alcançar a cumplicidade do silêncio com alguém. Conversar com alguém sem falar está na essência do humanismo e nos torna mais próximos do que realmente somos.

Neste sentido, a primeira leitura emocional que fazemos acontece no ambiente familiar, no olhar de afeto, carinho, proteção  ou repreensão oferecidos pelos pais. Em seguida, vamos agregando o vocabulário facial dos irmãos e amigos, para mais adiante incrementar  o que diz no seu silêncio todo o tipo de pessoa com quem se tenha qualquer tipo de relacionamento. E assim, cada um de nós, baseado em suas experiências sociais e emocionais, cria o seu próprio código de comunicação, baseado na nossa capacidade de empatia. De entender o outro. De colocar-se no lugar do outro. E é justamente isto que está se perdendo.  As pessoas estão desaprendendo a se relacionar.

Reconheço que o mundo virtual é mais prático. Mas eu gostaria que esta parafernália digital se tornasse só uma ferramenta para o mundo real. Talvez eu seja saudosista, ou com o perdão do pobre trocadilho, seja pouco realista. 

2 comentários:

  1. Cada vez melhor, amigão!
    Parabéns!

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  2. Muito obrigado, queridona! Boas leituras! Apareça por Sta Cruz! Bj!

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