segunda-feira, 30 de julho de 2012

Beleza x querideza


Um amigo me contou dum dilema. Não sabe o que fazer com a sua mulher-objeto. É que ele faz o tipo seletivo. Só tem experiência com mulheres-troféu. E sabe que é por isto que não sabe lidar com a sua mulher-objeto. Com mais de 30 anos, solteiro convicto, excelente status, ele transita com facilidade no mundo das mulheres-troféu. Elas fazem fila pra ele.E agora, pela primeira vez, se envolveu profundamente com uma mulher-objeto.

No conceito geral, tanto a mulher-troféu quanto a mulher-objeto são rolos, esquemas, amizades coloridas ou qualquer coisa do gênero. Mas são diferentes. Diferentes na essência da visão masculina.

A mulher-troféu é aquela personagem quase fundamental no universo masculino solteiro(e dependendo do caso, dos casados também).  Faz bem ao ego e alimenta mais aos olhos do que a alma. É aquela que dá motivo para que os amigos olhem com inveja branca ou até um pouco encardida. É a que fica na capa do currículo. Já a mulher-objeto é aquela que nutre mais à alma que aos olhos. Ela não é tão bonita como a mulher-troféu, mas é mais divertida, simpática prestativa, educada e geralmente, inteligente.   

Pois então.

Acontece que depois de alguns meses de encontros esporádicos com esta mulher-objeto, este meu amigo não quer mais a sua mulher-objeto. Mas também não quer abrir mão dela porque sabe que vai sentir saudade. Sim. Posse e ciúmes em relação à dita cuja. Acha que ela não é “a mulher” pra ele, mas não consegue se desapegar. Quando resolvia terminar, lá aparecia uma noite chuvosa de terça-feira ou um recado criativo por parte dela, sempre disponível, atenciosa e divertida. Então ele caía em tentação. 
Caía, segundo ele, porque ela é querida, porque ele não conseguia dizer não. E agora, prestes a perdê-la por gastar tempo com as mulheres-troféu que o cercam, está prestes a pedi-la em namoro, coisa que nem cogita fazer com nenhuma das tantas mulheres-troféu que o cercam.   

A situação do meu amigo me faz pensar sobre o quanto é complexo para qualquer ser humano o ajuste da equação entre beleza e querideza na hora de encarar um relacionamento a dois. Talvez seja até um dos principais pilares de sustentação de uma história. A qualquer ser humano, não é tarefa fácil entender que se relacionar com alguém tem muito de equilibrar o que os olhos querem com o que a alma busca, o que não deixa de ser um mergulho dentro da própria sinceridade. E neste sentido, homens e mulheres já foram bem mais diferentes. Já foram. Hoje, homens e mulheres ostentam troféus. O papel do meu amigo poderia tranquilamente ser de uma amiga.

Isto acontece pelo culto à beleza, que vem oprimindo a querideza. Hoje, querideza virou sinônimo de ingenuidade, puritanismo, inferioridade. De certa forma, isto acontece, porque a beleza tem muito mais peso nas relações imediatas, rápidas, sem comprometimento, tão mais presentes no nosso cotidiano. Homens ou mulheres que são troféus são disputados à unha para aquele momento. Só aquele momento. E quando a preocupação com a embalagem se torna maior do que o conteúdo, a relação com o “produto adquirido” consequentemente será frustrante. E é por é por isto que a duração de muitas das relações atuais já nasce com o exato prazo de validade do tempo em que a beleza conseguir cumprir seu papel de encantamento.  

Neste sentido, as mulheres são as maiores vítimas. Sim, aquela linda e fútil é uma vítima. E nós homens, de certa forma, somos responsáveis por isto. Eu mesmo me sinto culpado por, na infância, adolescência e parte da juventude ter me feito de servo dos encantos daquelas lindas, somente por serem belas. Sim, eu e não só eu, alimentei a ideia de que só a beleza bastava. Todos os homens do mundo, em algum momento da vida, ajudaram alguma mulher linda e vazia a tornar-se vazia, tanto quanto todas as mulheres do mundo, em algum momento da vida já ajudaram um homem a pensar que um abdômen definido e um rosto simétrico eram o suficiente para tornar qualquer mulher submissa aos seus caprichos. Privilegiados são os belos que entendem a beleza não basta para ser mais que um troféu, que a beleza interior espelhada à exterior é igual à beleza ao quadrado.  

É preciso mais que beleza na vida porque em qualquer relacionamento longo, a querideza conta mais que a beleza. Vide família, amigos, colegas de trabalho que viram amigos. E por querideza entenda-se o afeto, respeito, educação, zelo, inteligência  e tudo que vem junto. A querideza pesa porque não é transitória. A querideza humana não é inimiga do tempo. A beleza inevitavelmente é. E é por isto que é muito comum que mulheres e homens queridos tenham mantenham seu valor sem grandes oscilações. Avaliar as pessoas como elas são é bem mais seguro do que avaliá-las como elas estão.

Querideza é investimento seguro. Beleza é capital de risco.

Lógico que ninguém seria hipócrita de dizer que a estética não faz diferença. Claro que faz. Mas não basta. O que é belo atrai, mas não se sustenta só pela beleza. E é por isto que este dilema do meu amigo já foi o dilema de toda e qualquer pessoa sobre a face da Terra em algum momento da vida. E é por isto também, que em algum outro momento da vida, mais cedo ou mais tarde, todo mundo aprende que a beleza é prioridade num relacionamento para os outros e a querideza é prioridade num relacionamento para si. E quanto mais cedo se aprende, mais sentido tem a vida. Como disseram ao Pequeno Príncipe, "o essencial é invisível aos olhos...só se vê bem com o coração". 

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