domingo, 8 de julho de 2012

E se...


Não há ser humano que não tenha guardado dentro de alguma gaveta do coração aqueles momentos da vida em que gostaria de ter sido mais. Mais qualquer coisa. Mais inteligente, sensível, espirituoso, pragmático, forte, veloz, ágil, bonito, valente, corajoso. Não sei exatamente de onde vem, mas acho que é normal de cada ser humano imaginar-se herói, fazendo algo grande para alguém ou para o mundo, em nome da moral, do amor, da ética, da lei ou de outra destas esferas reais ou imaginárias que regulamentam a convivência humana.

E nestes momentos intensos e marcantes em que não obtemos o êxito que julgávamos ser capazes de alcançar, é inevitável que surja circulando pelo nosso pensamento um carro de som com luzes piscantes anunciando um filme de nós  mesmos com o título de “E se”. E se eu tivesse falado. E se eu tivesse perdoado. E se eu tivesse aceitado. E se eu tivesse rejeitado. E se eu tivesse feito. E se eu tivesse insistido. E se eu tivesse desistido.

E se...e se...e se....   

Pois na tarde feia e chuvosa de quinta-feira em Porto Alegre, bem na esquina das ruas Irmão José Otão com Thomaz Flores, em Porto Alegre, eu tive um destes momentos “e se” que ficam rotulados no coração e na mente.

Sob o céu cor de chumbo, minha felicidade era uma espécie de contra-ponto colorido atravessando a rua, com algo que gosto às mãos para alguém que gosto, rumo ao meu carro. Pensamento longe e olhos à rua. Olhos que percebem no limite extremo do meu campo de visão esquerdo dois homens de bermuda e casaco com arma em punho caminhando rápido e cercando a mulher que abria o carro dela em frente ao meu.

Com o tom de voz que quem implora já sem esperança, ela só conseguiu dizer duas vezes “por favor, não”...”por favooooor, não faz isto”. Na rua sem movimento, uma mulher, dois homens armados...e eu ali, com uma usina de impulsos jorrando “e se” pra dentro do meu mundo naquelas frações de segundo.

O “e se” vencedor foi aquele em que, com dois três passos para trás, escondi-me junto de um poste e observei a cena, com o celular em punho discado no 190, pronto para ligar e sair correndo atrás do carro que obrigatoriamente perderia alguns bons minutos na engarrafada Avenida Independência.

Não foi necessário. E assim, à fotógrafa que perdeu o carro e os equipamentos avaliados em cerca de R$ 30 mil, eu só pude oferecer um mísero olhar de piedade, um abraço complacente, e um dedo indicador para estancar as lágrimas que despencavam, depois de dividir anonimamente com ela aquela situação que foi quase um prenúncio de morte.

Queria ter sido mais inteligente, corajoso, espirituoso. Queria ter sido qualquer coisa que pudesse ter evitado aquela covardia. Mas não fui, assim como os bandidos também não foram inconsequentes ou cruéis o suficiente para obrigar uma mulher que já estava aos prantos a embarcar no veículo com eles.  

 Guardo comigo os meus “e se”.  Um deles lateja mais forte, carregado de misericórdia pela tristeza alheia com a vergonha do próprio alívio: e se...eu não ficasse conversando com a senhora simpática que me atendeu na loja.. possivelmente teria sido eu. 

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