domingo, 1 de julho de 2012

O cúmulo da convivência


O cúmulo é o ápice. É o everest da definição.  Quando algo é o cúmulo é porque não há nada que o sobreponha. O cúmulo é o exemplo cirúrgico, o conceito nuclear. E é por isto que todo namoro ou casamento é uma espécie de cúmulo da convivência. Oferecer e receber, impor e ceder estão entre os dilemas que constroem as felicidades íntimas e agruras domésticas de conviver com aquela pessoa que escolhemos para compartilhar a nossa vida. E todo casal, neste sentido, só é casal quando as duas partes têm acordado uma espécie de fair play .

É por isto que quando cada casal resolve visitar a sua sala de troféus, é costume reservar mais tempo para olhar aquela galeria especial onde estão guardados aqueles momentos de fair play, em que uma das partes esmerou-se pela outra, abriu mão de si pelo outra, sem nunca ter recebido nada em troca porque jamais cobraria. Toda relação com amor de fato é uma espécie de jogo ao contrário. Ninguém quer ganhar.  E se há um ganhador é quem perde mais. É normal ouvir alguém falando que naquela relação, uma das partes ama mais porque já abriu mão disto, tolerou aquilo ou fez mais do que devia enquanto a outra parte só recebia. E de fato, uma das maneiras de medir o quanto eu gosto de alguém é imaginar o que eu estaria disposto a fazer por aquela pessoa.  É que o amor é altruísta. Se não tem altruísmo, não tem amor.  

E uma das coisas mais mágicas dentro de uma relação é a construção deste fair play. Desvendar os limites da pessoa que convive conosco é tão interessante quanto descobrir quais são os nossos em relação a ela. E normalmente isto acontece com gargalhadas ou lágrimas, dependendo de variáveis como as personalidades individuais, ambiente da relação e o grau de envolvimento de ambos.  

Mas há coisas ou fatos que nem o fair play resolve. Daí não há outra opção. Ou a relação ganha uma espécie de regulamento ou corre o risco de naufragar. Neste sentido, tenho um casal de amigos que é referência. Tão diferentes quanto bem resolvidos, riem das proezas que necessitam para viver em conjunto. Tanto que convencionaram quase que uma cartilha de coexistência, que inclui regras para futebol, trabalho e até brigas. Sim. São altruístas até nas brigas. 

Recentemente compraram um sofá que era o sonho de consumo de ambos. Confortável, espaçoso, macio.  É praticamente  uma nuvem disfarçada de sofá.  Dias depois, por um motivo que não vem ao caso, entraram numa divergência fortíssima. Ele então definiu:  iria dormir na sala. Neste instante, ela revoltou-se e disse que se alguém fosse dormir na sala, era ela. Pronto. Entraram em consenso de que não dormiriam juntos aquela noite. O dilema passava a ser quem teria o direito e o privilégio de dormir no aconchego do sofá.

Como sempre fazem, entraram em consenso. Naquela noite, dormiram os dois na cama. Dias depois, estabeleceram mais uma regra. Haveria um rodízio. A cada discussão futura que impor um sono solitário para uma conversa sincera com as próprias idéias, haverá um revezamento na ocupação do sofá. Uma briga para cada um.

O sofá é tão bom que ficaram com medo que as brigas pudessem aumentar. Mas não há perigo. Eles sabem que não há sofá que tenha o espaço de um abraço, o conforto de um sorriso ou a maciez de um pedido de desculpas. E sabem porque têm de amor tanto quanto têm de respeito.    

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