segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Beleza x querideza II


É tão complicado quanto curioso este mundo contemporâneo em que homens e mulheres assumem condições híbridas de comportamentos, funções, profissões. Mas mesmo que ambos os sexos já se acostumem com a presença do outro em suas características historicamente concebidas, a presença do gênero oposto em certos feudos comportamentais causa incômodo.

Em alguns casos, até desprezo.

Um destes feudos, creio eu, é justamente a beleza. Corrijam-me se estiver errado, mas pelo que percebo, de tudo o que a mulher moderna está disposta a negociar em busca da sua equidade total de conduta, um dos últimos quesitos a entrar em questão é o direito de ser bela. Que o seu ficante, namorado ou marido se imponha em salário, força, dedicação ou querideza, mas o papel da beleza cabe a ela. Dentro dos parâmetros da normalidade, é a vaidade que deixa a mulher em seu estado puro. A mulher vaidosa é mais mulher que as outras mulheres. E todas as mulheres, mesmo que não concordem, sentem isto.

E nós homens logicamente agradecemos por isto. Embora não percebamos quando as pontas duplas são aparadas ou quando o esmalte fosco toma o lugar do cintilante, nossos olhos sempre dizem o que a nossa fala não consegue traduzir. E vocês sabem disto. Nós homens agradecemos por isto. É biológico e social. Adoramos quando vocês nos estimulam esteticamente. Mas é preciso confessar que são poucos de nós que entendem que a vocês mulheres, este culto à beleza divide-se entre céu e inferno numa linha muito tênue.

É claro que não falo da competição velada que sempre existiu entre as mulheres pela soberania estética diante das semelhantes. A exclusividade da roupa, a criatividade da maquiagem, a ousadia do cabelo, a pele sem manchas ou a musculatura mais consistente nem entram em questão. Isto faz parte. Isto é do jogo. Isto é o que faz o universo feminino ser o que é. Refiro-me ao que vem depois da pele, cabelo, pele, maquiagem  e musculatura ajustados. Refiro-me à necessidade de um esforço muito maior para mostrar que existe um cérebro por trás de um rosto bonito.

O culto à beleza feminina está por matar por asfixia o culto ao cérebro feminino. É só olhar o mural do Feicebuque. Está entre as maiores reclamações das mulheres que os homens não querem saber o que elas pensam, sentem ou fazem, mas sim em que academia que elas frequentam. 

É bem como a história de uma amiga de Porto Alegre que trabalha em um dos principais bancos do País. Candidatou-se à uma vaga de gerente. Foi pré-selecionada. Fez a entrevista junto de uma banca.  Não passou à fase seguinte. Pediu um feed-back referente ao seu desempenho na seleção. Ficou desiludida ao ouvir de uma psicóloga que em tom constrangido disse que a beleza desta amiga a prejudicara e atrapalharia muito numa ascensão profissional, pois normalmente os entrevistadores prestariam atenção em sua estética e não em seu conteúdo intelectual, bem mais necessário ao cargo postulado do que o seu rosto e um corpo agradáveis aos olhos.

Ou seja, a mesma beleza feminina que facilita a vida de uma pessoa a deixando como uma espécie de epicentro do mundo que a cerca na adolescência e juventude, cobrar seu preço na idade adulta. Então, sendo assim, cabe a pergunta: a pessoa bela é que usa sua beleza diante dos outros ou é usada pelos outros por esta mesma beleza? 

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