segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Bullying no Pequeno Príncipe


Lá está uma conversa. Já se tornou um debate. Em dupla ou em grupo maior. Tanto faz. São devaneios, teorias, divagações, hipóteses, boatos, curiosidades. Então vem o fulano ou a fulana. E pronto. Solta a frase. Aquela frase. A frase mágica que resume e organiza em quatro ou cinco palavras todo o universo de sentimentos e pensamentos desajustados no diálogo. Geralmente, estas frases que sintetizam a vida nascem de seres humanos excepcionalmente hábeis em mostrar que a essência do mundo se traduz num pequeno grupo de códigos, símbolos e palavras subjetivos e compreensíveis acima da média, que de  tão simples, tornam-se complexos.    

E dentre todas as minhas convivências reais ou fictícias nunca conheci ninguém que tenha demonstrado maior capacidade de explicar a vida numa destas ínfimas porções de linguagem do que O Pequeno Príncipe. Sim. Ele mesmo. Lá no meio do deserto, entre carneiros, baobás, flores, uma raposa, uma serpente e uma porção de planetas, o menino dos fios dourados ensinou a milhões de pessoas o que é inteligência emocional, quando este conceito ainda nem existia.

Eu fui apresentado ao Pequeno Príncipe já adulto. E para um adulto é difícil admitir que O Pequeno Príncipe possa ser interessante. É normal. As pessoas grandes são assim, diria ele, se me encontrasse. 

Foi através de uma ex-professora de português e proprietária de uma livraria. Ela dizia-me que poucos são os livros que merecem ser lidos mais de uma vez na vida. E O Pequeno Príncipe, segundo ela, pela densidade do conteúdo e facilidade de manuseio, talvez fosse o único que devêssemos ler pelo menos uma vez por ano. Minha ex-professora disse e com razão que cada vez que o lemos, temos uma interpretação diferente e aplicável em alguma área da nossa vida. E é verdade. Estava entre o delírio e a inspiração o autor Antoine de Saint-Exupéry quando escreveu aquelas poucas páginas, que podem ser lidas numa tarde.

Quando terminei só pude lamentar por não tê-lo comprado antes. Página por página, é inevitável diante da simplicidade da narrativa, a identificação das próprias sementes boas e ruins, dos baobás que deixamos que crescessem demais em algum momento da vida, os carneiros que não soubemos desenhar, a necessidade e o significado da palavra cativar ou o segredo de enxergar com o coração.

E acho que também é normal que pelo menos em algum momento do livro, sinta-se um pouco de vergonha de ser adulto. Conforme vai-se relendo O Pequeno Príncipe ao longo dos anos, vai-se vendo que a vida é bem mais simples do que parece. Que alguns problemas não são problemas.  Que invertemos a ordem de importância das coisas, que isto, que aquilo e tudo mais.

A única coisa triste nisto tudo é que O Pequeno Príncipe praticamente não tem mais lugar no nosso planeta. O livro é praticamente uma vítima de bullying. Rotulado como livro das “misses”, ficou com um estigma de ingênuo, puro, utópico, por semear valores que vão à contramão do que a sociedade do nosso tempo considera “correto”. Conjugar o verbo cativar diante de alguém é quase um esporte radical. Quem ousa, corre sério risco de passar por ridículo, emotivo, pegajoso. Passa por tudo, menos por humano. É que como diria o próprio Pequeno Príncipe.  As pessoas grandes não entendem. Elas só acreditam em números. Elas só conseguem ver através dos números.   

Eu sei que é difícil advogar a favor de um livro antigo, de caráter infanto-juvenil, assim como eu sei que é difícil a um adulto admitir que ler um livro destes pode ser uma fagulha para mudar a maneira de ver a vida.  Mas é fato que O Pequeno Príncipe é um livro “mágico”. Mágico porque ele faz com a vida nos fique nítida como já foi um dia, diante de um prisma que já possuímos, mas perdemos em algum lugar entre a adolescência e a juventude, quando nos disseram que não podemos ser nós mesmos, mas o que os outros querem que sejamos, para que também sejam o que nós queremos.

Parece complicado, mas não é. É que eu já me tornei uma pessoa grande. E por isto, eu não sei explicar. Mas é simples. Vai lá.  Lê O Pequeno Príncipe. Ele sabe melhor do que eu.  

2 comentários:

  1. Bem assim...Só quem teve o prazer de conhecer o Pequeno entende...
    Depois de ser apresentada a este 'Pequeno" não tem como não criar laços. Ele nos cativa de tal forma que não tem como ficar longe dele.
    Nos encontramos uma vez por ano. Nossa amizade já dura 27 anos, e todos anos, a cada encontro, ele sempre me ensina uma coisa nova.Espero que nossa amizade seja eterna.

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  2. Exatamente!!! Fui apresentado a ele mais tarde, bem mais tarde! E desde o início me identifiquei! Acredito muito que se as pessoas lessem mais O Pequeno Príncipe, o mundo seria bem melhor! Abraço e obrigado pela leitura!

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