segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Mulheres labirínticas


Toda mulher sabe que é um labirinto. Um labirinto, que se não bastasse ser labirinto, tem suas entradas e saídas transformadas diariamente. Ontem era assim. Só ontem. Hoje não é mais.E amanhã não se sabe. E conforme estas modificações limítrofes se sucedem, toda a estrutura interna do labirinto se altera. Cada dia é um caminho diferente. Assim é porque a cada dia há uma mulher diferente.

Toda mulher tem seu labirinto formatado pelo que pensa e o que sente. Normalmente os pensamentos formam uma espécie de superfície. É pelo chão de suas idéias que elas avançam caminhando sobre dilemas como o que eu quero, o que eu acho que quero, o que as amigas pensam, o que as não-amigas pensam, o que ele pensa, o que ele quer, o que ele sente, o que ele sente por mim, etc. E junto deste chão de dúvidas, enquanto caminha, ela vê seus horizontes delimitados por trevos, paredes, barreiras ou passagens sentimentais erguidas na forma de emoções como amor, paixão, afeto, angústia, medo, ansiedade, raiva, insegurança ou solidão.

E mesmo que não admita, toda mulher tem orgulho do labirinto que carrega dentro de si. As mais racionais pulam, correm, saltam e até dão cambalhota pelo terreno macio e confortável dos seus pensamentos, sem medo de testar a resistência das paredes de sua sentimentalidade. Já as nem tanto assim caminham de um lado para o outro sobre um mesmo pedaço de idéia, com medo do que pode estar escondido por trás de cada amontoado de tijolos afetivos. Mas tanto faz. Ambas sofrem e se divertem à sua maneira, sendo o que são hoje. Só hoje. Amanhã talvez mudem. Certamente mudarão. Um pensamento vai. Outro desaparece. Algum sentimento surge. E assim segue.   

Talvez seja por isto também que toda mulher espera de um homem algo como uma racionalidade emocional. Seria isto a capacidade de transitar entre a capacidade de entendimento e a abstração de algumas metáforas afetivas.  Ela vê o seu escolhido como um mapa capaz de ajudá-la a decifrar os caminhos do próprio labirinto. Noutra oportunidade, já disse que cada homem sente-se um explorador diante de uma mulher. Uns vão mais adiante. Outros mais aquém. Alguns são mais esforçados. Outros, displicentes.

Mas por mais condizente que seja o mapa ao labirinto ou bem intencionado que seja o homem, nunca haverá aquele que alcance o núcleo do enigma. Pode até encontrar a saída. Mas nunca o núcleo. Labirinto decifrado é relação desencantada. Na caminhada pelo entendimento da alma feminina, todo homem é alguém perdido tentando ajudar alguém que sabe onde quer chegar, mas não tem nem idéia do caminho.

É essa fé na descoberta conjunta e complementar que faz com que todas relações saudáveis se construam.  Comodista é a mulher que se afeiçoa a um homem que não queira a desvendar. Vai contra a lógica do gênero. No fundo, toda mulher tem orgulho de ser uma mulher de fases. Fases que duram horas, dias, semanas, meses ou anos. Fases dentro de fases. Fases depois de fases. Assim também, comodista é o homem que se afeiçoa a uma mulher cujo labirinto seja um descampado sem enigmas. Não se trata de conquista, mas de descoberta. A geografia já explica. Homem é espaço. Mulher é tempo. Homem quer território. Mulher, ciclos.

Por isto, sonhadora é a mulher que pensa que há gabarito para o seu labirinto. Delirante é a que deposita unicamente no homem esta resposta. Ser enigmática é diferente de ser fazida. Da  mesma forma, mentiroso  é o homem que pensa que nunca se sentirá perdido no labirinto feminino e ingênuo é o que pensa que a verdadeira descoberta é simples e rápida. Pegar é diferente de conquistar.   

Talvez seja por isto que alguns dos casais mais felizes que conheço são os que se conhecem o suficiente para estarem sempre reinventando a si e ao outro. Usam as próprias novidades e descobertas para tornar mais interessantes a si e a quem convidaram para dividir a vida.  É que por mais divertido e misterioso que seja um labirinto e mais perspicaz e esforçado  que seja o explorador, é só quando a intimidade da convivência mostra os sinais que o enigma faz sentido. 

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