segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Pessoas inesquecíveis


“Não tem preço” virou jargão. E não é por acaso. A frase da operadora de cartão de crédito acertou na veia. Foi feliz e humana na tentativa de lembrar-nos de algo que sabemos, mas geralmente esquecemos: em momentos de felicidade, mais valiosa que experiência física é o impacto emocional.

Valor é diferente de preço. Coisas têm preço. Momentos que têm valor.  

Lógico que o apelo materialista hoje é inevitável. Mas independente de preços, há sim como fazer com que gestos simples que a vida nos oferece tenham um valor imenso a um preço muito baixo ou mesmo inexistente. É uma prática saudável, simples, mas que, aos poucos, vai se perdendo. É que nós, principalmente depois da adolescência, esquecemos que o melhor quando se proporciona uma felicidade a alguém é que esta felicidade irriga tanto o organismo de quem desfruta como de quem oferece uma alegria. Fabricar um sorriso alheio é sorrir também.

Neste sentido, junto com o esquecimento de que o valor é mais importante que o preço, está a nossa falta de percepção do  poder mágico que possuímos em proporcionar a felicidade alheia, através do inesperado. Surpreender é um dos atalhos para alcançar o epicentro da alma de alguém. O inesperado fascina porque é de graça, é o bônus, é o plus. O inesperado geralmente é inesquecível. E planejar o inesperado é quase como que brincar de Deus. É ter controle sobre a emoção, o tempo e a vida alheia, por uma fração de tempo, que será congelada e eternizada.  

E o inesperado tem um poder tão impressionante, que todo o esforço empregado em surpreender alguém paga-se na ínfima porção de segundos em que o súbito acontece e o espírito se deslumbra, incrédulo, diante do inverossímil. Se houvesse um ranking de expressões humanas, possivelmente entre as mais puras e valiosas, pela sinceridade e espontaneidade, estariam os sorrisos ou lágrimas diante do inesperado.

Quase sempre, estas situações causam um efeito positivo tão intenso porque vão de encontro a uma das grandes buscas de qualquer ser humano: a eternidade. Embora não percebamos, somos os únicos seres vivos com a noção exata e detalhada de nossa finitude. E é por isto que tudo que fazemos em nossas vidas, para o bem e para o mal, tem na busca da eternidade, sentimental e intelectual a sua essência.

Tornar um momento inesquecível é tornar-se inesquecível. 

É este instinto de busca pela existência perene que nos faz evoluir como raça, ter filhos, fazer o bem, praticar o mal. Tudo está ligado à vontade de ser eterno. É na tentativa de ser eterno que cada ser humano exibe o que possui de pior ou melhor. Há aqueles por dom, persistência, coragem ou dissonância de comportamento, alcançam esta existência perpétua. Há outros, quase anônimos no mundo, cuja lembrança será menor em dimensão e tempo até perder-se em algum ponto em que as linhas do espaço e do tempo hão de cruzar-se.  

E neste sentido, independente do grau de eternidade que cada um de nós alcança, talvez o mais importante é a escolha pelo que queremos ser lembrados. É isto que nos molda e serve como um leme à nossa trajetória de vida. Porque mais importante que ser lembrado é a razão da lembrança.

5 comentários:

  1. Cássio, Parabéns! Este seu texto se traduz de uma forma madura e carregada de emoção.
    Lindo de ler, gostei muito.
    Solange, Sol

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  2. Muito obrigado, Sol!!! Lisonjeado! Ler um elogio de alguém da tua estirpe me é um orgulho sem tamanho! Bj grande!

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  3. muito muito bom esse texto Cássio, somos eternos por natureza mas como não temos a certeza disso, necessitamos de alguma forma VER algo nos eternizando antes de partirmos. Abração queridoo!

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  4. Nossa....Gabi! Uma fã da tua estirpe...vou me achar...rsrsrs!!!! E Vanessa...é exatamente isto...interpretação perfeita!!! Bj pra vocês e obrigado pela leitura!!!!

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