segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Amor psicotrópico


É inevitável. Vai chegar o dia em que os cientistas descobrirão a fórmula do amor. Comporão uma versão sintética da equação hormonal que nos inunda de paz e euforia. Daí então, qualquer sujeito chegará a um balcão de farmácia com uma receita, inicialmente controlada, depois liberada, na qual estará prescrito o amor. Possivelmente em drágeas, porque amor tem que ser doce.

A posologia e a dosagem dependerão, obviamente, da gravidade da situação.Por exemplo, Amor 300mg, duas vezes ao dia, por um mês, em caso de carência profunda. Amor 150mg, três vezes ao dia, por duas semanas só para amenizar o tédio. Amor 250mg, uma vez ao dia, por tempo indeterminado, em casos de solidão.

Mas enquanto isto não acontece, que se valha do amor que se dispõe, deste amor psicotrópico, gravado na retina de qualquer pessoa. Todo mundo tem em si o gene do amor psicotrópico.  Inicialmente, só em alguns ele se manifestava. Hoje, trata-se de uma epidemia.     

Por amor psicotrópico entenda-se aquele amor que age no sistema nervoso. Não sacia. Nem cura. Só ameniza. É aquele amor que atenua o vazio, porém sem preencher qualquer espaço. Remédios psicotrópicos enganam o cérebro. Amores psicotrópicos iludem o coração. E assim como há quem seja dependente de remédios psicotrópicos, logo, há quem seja vassalo de amores psicotrópicos. É quem, por alguma razão, tem no organismo a falta de uma espécie de “glândula”, que produz o  amor próprio. São pessoas, que por esta deficiência, precisam amar alguém e sentirem-se amadas por outrem para dormir, acordar, rir, chorar, trabalhar, conversar, correr, caminhar, viver.

Como toda substância, o uso contínuo do amor psicotrópico gera dependência. Quando acaba o efeito de uma primeira dose, a sensação de incompletude retorna. Então, ressurge a necessidade de mais. Há quem use versões genéricas ou similares do amor psicotrópico. Rolos, casos, esquemas, paixões, peguetes e ficantes são as soluções mais comuns.  

Há quem pense inclusive, que já é um caso de saúde pública a dependência de boa parte da população em relação a este tipo de amor. Principalmente, porque se tornou comum misturar o amor psicotrópico ao álcool. Em casos críticos, os efeitos são irreversíveis. As seqüelas, perenes. Mas normalmente, o efeito é mais simples: uma leve sensação de depressão aguda quando se amanhece junto de um  amor psicotrópico mesclado a um teor etílico elevado. E a solução, nestes casos, é mais uma dose de amor psicotrópico. Só que isoladamente.   

Assim como tudo que se dispõe a uma medida paliativa, o uso deste tipo de amor por períodos longos normalmente faz com que o mesmo perca efeito. É como se a alma criasse anticorpos ou o coração ficasse esperto. E esta esperteza, que deixa a alma sempre em estado de alerta, normalmente tem uma série de conseqüências. E a principal delas é a incapacidade de reconhecer qualquer tipo de amor. Até o verdadeiro.

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