terça-feira, 4 de setembro de 2012

Coração capitalista


As metáforas econômicas sempre ajudam na explicação de sentimentalidades. O tom racional é um convite pedagógico para mensurar os conceitos abstratos e subjetivos do mundo passional. Eventualmente me valho destas metáforas aqui no blog.

Hoje, de novo!

Dias atrás, numa conversa com uma amiga, entramos no campo destas metáforas econômicas. Investir sentimentos, coisa e tal. Então, ela chegou à conclusão que estava “emocionalmente falida”. Depois de desgastantes investimentos emocionais sem retorno, se considerava afetivamente descapitalizada para aplicar uma quantia mínima de ânimo numa nova relação.  Tudo bem que ela chegou a esta conclusão enquanto arrumava o próprio armário numa noite de segunda-feira depois de um fim de semana frustrante, o que não é o cenário ideal para se fazer um balanço dos próprios sentimentos.

Mas enfim, foi a conclusão a que ela chegou.

Então, economicamente falando de sentimentos, me chama muito a atenção da habilidade de algumas pessoas em endividarem-se emocionalmente. Compram sonhos que não tem, gastam energia e tempo que não dispõem, fazem contratos de risco na esperança de encontrar em alguém uma rentabilidade afetiva que não existe. Algumas chegam a hipotecar regras de conduta, valores de vida ou monetários na aquisição de uma alegria notoriamente efêmera.

Neste sentido, tanto homens quanto mulheres agem igualmente. Sabem que não é o que procuram. Tem a certeza de que não precisam, mas continuam a oferecer de si. 

Quando isto acontece, o coração atua como uma instituição bancária.  Quando usamos uma emoção que não dispomos, nosso depósito de sentimentos cobra juros muito maiores do que os que nos são oferecidos quando depositamos nele algum sentimento que temos em fartura. Há quem use seus sentimentos como se fosse um cartão de crédito. Vive hoje o que quer sentir amanhã, sem perceber que aquele vazio que dá de vez  em quando é um sinal de que se está entrando  no “cheque especial”. A partir dali, os juros ficam mais elevados. E assim como no mundo monetário, fazer um empréstimo emocional com outra pessoa para quitar uma primeira dívida, normalmente é o caminho mais curto para pedir concordata ao próprio coração.

Não há escolha. Gostar de alguém, adorar alguém, amar alguém é sempre um investimento a fundo perdido.  

É por isto que investir em alguém esperando algo em troca será sempre o primeiro passo para um endividamento emocional. Pelo que percebo da minha e de outras vidas, quando se faz algo simples e unicamente pelo prazer de gostar de alguém, não há frustração. Pode haver lamento, mas jamais frustração. Pelo contrário. Há uma espécie de realização em ter dado o melhor de si. 

Quem gosta, adora ou ama alguém esperando retorno, não gosta, adora ou ama. Só tem interesse. E muito mais interesse próprio do que no ser amado. É a ânsia do lucro emocional. 





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