segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Sobre homens violentos


Todo poder nasce de uma relação. Qualquer forma de autoridade depende da obediência ou submissão de algo ou alguém.  E toda alma tem sede de poder. Por mais franciscana que seja, algum tipo de domínio ela almeja. É questão de existência, de sobrevivência. Social, financeiro, econômico, esportivo, familiar, religioso, comunitário, político, intelectual, depois de alcançado, todo tipo de poder é absorvido e transformado em vários componentes da nossa personalidade.

E neste sentido, homens e mulheres vêem o poder de forma bem diferente.

A nós homens, por nossa condição histórica, composição biológica e uma boa porção de rastro evolutivo, o poder está ligado à autoafirmação. Precisamos mostrar que somos mais capazes, fortes, inteligentes, habilidosos, espertos que os outros homens. Além de uma garantia pessoal, trata-se de uma maneira de assegurar o respeito de outros homens e a admiração das fêmeas que nos cercam. Todo e qualquer tipo de diferenciação em relação aos demais sempre nos serviu como autoafirmação. Ser exemplo, referência é o supra-sumo da masculinidade.

Já às mulheres, normalmente o poder sempre esteve muito mais ligado à autoestima. Pelo mesmo trinômio  “condição histórica, composição biológica e rastro evolutivo”, o que deixa uma mulher sobreposta às suas semelhantes era a estabilidade afetiva. Sentir-se amada ainda é o cume do poder feminino. A ela, saber que exerce de maneira dissimulada ou explícita, o poder sobre o seu homem é uma espécie de combustível.  Ao contrário da visão competitiva masculina, o prisma feminino é comparativo. E normalmente a comparação envolve o amor que recebe e o amor que oferece. Sentir-se mais amada que amante é o máximo. E diante de outras mulheres é o supra-sumo.

Mas o mundo mudou. As relações sociais mudaram. E consequentemente, o poder também se transformou. Tempos atrás, escrevi aqui que esta nova ordem comportamental do mundo é um oásis masculino. Com vantagens econômicas, sociais e sexo fácil, nossa condição é extremamente confortável, já que a revolução feminista nos permitiu dividir as responsabilidades sem perder os direitos.

Mas nem tudo é cerveja, sexo, futebol e liberdade no mundo masculino atual.  Agora, nós homens não competimos mais apenas entre nós. Agora há inimigas na trincheira. Há mulheres mais capazes, fortes, inteligentes, habilidosas e espertas que nós. Precisamos nos afirmar tanto entre os nossos semelhantes quanto em relação às fêmeas que tentamos impressionar. Contar vantagem já não vale mais. Exercer vantagem é até pejorativo.  

Esta necessidade de igualdade entre os sexos deixou boa parte da classe masculina numa certa crise existencial. Se  é bem verdade que as mulheres não sabem o que fazer com a liberdade e o poder que conquistaram, pois querem ter o direito de mandar e pedir colo,  é bem verdade que os homens também querem ter a liberdade de agora com o exercício da soberania de antes numa relação a dois.

E é na perda da autoridade dentro da relação que mora o maior drama masculino atualmente. Não sou eu que digo. São as manchetes policiais. Enquanto este texto se encaminha para o final, alguma mulher está sendo insultada, agredida, humilhada, estuprada ou morta...pelo próprio marido.        

À grande parte dos homens, sempre foi admissível abster-se do poder no ambiente de trabalho. A válvula de escape era dentro de casa. Ali,diante da mulher e dos filhos, ele era a lei, a segurança, a ordem. Era ali que ele se realizava como homem, instintivamente falando. Tanto um bom homem ou um mau homem, era no lar, que ele tinha a oportunidade de exercer a autoridade, o poder.

E a mim, na condição de quem aceita, compreende, valoriza e acredita que esta mescla comportamental de homens e mulheres, com compromissos e  responsabilidades mútuas é a única alternativa que dispomos para uma convivência afetiva diante do atual modelo econômico, é muito triste e até humilhante ver o desespero e a decadência destes homens que oprimem, ferem, agridem e matam.

 Na maioria dos casos, é muito mais desespero que maldade. Em outros, claro, o contrário. Fazem isto, porque a força é o que resta. A família que agoniza é o que resta. A esposa é o que resta. O medo dela é o que resta. A angústia dela é o que resta para ele se afirmar como homem.  Isto porque ele, ingenuamente, não entende que os homens de hoje não exercem mais seu poder. As  mulheres idem. 

Poder sequer existe.

A nova ordem entre homens e mulheres conhece apenas o respeito, que ambos só conseguem exercer a partir de algo chamado admiração.  

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