segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Depois da guerra...


Por quatro meses, a cada quatro anos, o Brasil entra em guerra nas eleições municipais. Talvez seja uma carência de conflito devido à postura pacifista brasileira. Mas fato é que em época de pleito, santinho é fuzil, outdoor é morteiro, automóvel é viatura, carro de som é blindado e uma caminhada se torna uma marcha de conquista. É preciso cuidado.  Cada elemento neutro é suspeito de ser agente duplo. O vizinho pode ser inimigo. O amigo de infância, emboscada. O pai perde o controle. A mãe não entende o contexto. 

Coisas de guerra.Guerra urbana. 

Guerra, que tanto bélica como eleitoral, nasce de uma causa e cria um habeas corpus à maldade, porque envolve a alma enquanto semeia uma promessa de redenção. E como em toda guerra, os  generais, seguros em seus bunkers, tratam da estratégia. Enquanto isto, é junto dos soldados no campo de batalha que está a extremidade passional do conflito. É o brilho no olho, a vibração dos gestos e a devoção de quem acredita. Só que quando esta devoção torna-se fanatismo, a guerra perde o sentido. E imerso neste estado inconsciente, o soldado eleitoral não consegue mais enxergar o lado humano da disputa. Ele não vê que na outra esquina há alguém com família, profissão, sorrisos, lágrimas, desejos, angústias, medos e...um ponto de vista diferente. Quem troca a devoção pelo fanatismo enxerga um inimigo entrincheirado numa bandeira, com o adesivo de insígnia na camiseta que é uma farda.  Do outro lado, há um inimigo. Por três meses, um inimigo.  

E este tipo de comportamento é típico das eleições municipais porque toda guerra não é minha até que chegue à minha porta, da minha família ou do meu amigo. Nas cidades, independente do tamanho, o contato é pessoal e todo mundo sabe o que o outro fez no verão passado. Se não conheço o candidato, conheço alguém que o conhece ou que ele conheça.      

É por isto que quem não está diretamente envolvido com a guerra municipal tem uma percepção mais nítida e até se assusta quando percebe que alguém rompeu o limite da devoção e mergulhou no fanatismo. E é também neste ponto que toda guerra ganha, diante de quem a assiste, um tom de tristeza, porque se vê o ser humano testando seus limites morais. No calor da batalha que cada um descobre do que é capaz em nome de algo que acredita ou sente. E quando a emoção da batalha arrefece, cada soltado saberá, pelas sequelas que ficaram, se foi além do que o corpo e a alma suportavam. Sim, guerra, bélica ou eleitoral, é causa, crença, sentimento, identidade, cicatriz, cicatrizes. Algumas desaparecem. Outras são perenes. Serão assinaturas de suas atitudes.  

O lado bom deste tipo de guerra é que todo conflito resulta numa espécie de ajuste sua conduta da humanidade.  Ao fim do combate, as diferenças são obrigatoriamente aparadas ou suprimidas, pelo menos por um tempo, e obrigatoriamente, inicia-se um novo ciclo, regido pelos valores, idéias, crenças e sentimentos dos vencedores. Quem vence, exercita a humildade para evitar a pedância. Quem perde, pratica a humildade para evitar a inconsequência.

E assim correrão os dias pelos próximos três anos e oito meses. Os soldados eleitorais voltarão às suas casas, cuidarão de seus filhos, estarão com seus amigos e pagarão seus impostos. O vizinho volta a ser vizinho. mas só até que a nova e inevitável guerra se inicie. Porque num conflito em que o voto é a arma, vencer não significa conquista e perder não significa derrota.   

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