domingo, 14 de outubro de 2012

Eu quero alguém assim


Todo mundo quer alguém assim. Pode até ser um pouco assado. Mas que seja predominantemente assim.

Assim normal. Assim diferente. Assim no jeito. Assim na idéia. Assim no coração. Assim com a minha família. Assim com meus amigos. Assim com minhas amigas. Assim com meus colegas. Assim no trabalho. Assim com sofisticação. Assim simples. Assim individual. Assim cúmplice. Assim tolerante. Assim compreensivo. Assim de corpo. Assim de altura. Assim de cabelo. Assim de olhos. Assim de boca. Assim de beijo. Assim de cama. Assim de fetiches. Assim de alma. Assim de música. Assim de livros. Assim de filmes. Assim com seu passado. Assim com meu passado. Assim com seu futuro. Assim com meu futuro. Assim com cachorros. Assim com gatos. Assim com a natureza. Assim com filhos. Assim sem filhos. Assim com futebol. Assim com religião. Assim à mesa. Assim com política. Assim com a voz. Assim com o sorriso. Assim com o respeito. Assim com a fidelidade. Assim com a admiração. Assim com o romantismo. Assim com a praticidade. Assim com os sonhos. Assim com o álcool. Assim com as drogas. Assim com os hábitos. Assim com os estudos. Assim com as palavras. E assim comigo, óbvio.

E é deste tipo de gente assim, assim como se gosta, assim como se quer, assim por dentro, assim por fora, que pense assim, que sinta assim, que aja assim, que acabamos por gostar e nos envolver.

E neste sentido, há quem diga que aquelas pessoas com mais clareza sobre os “assins”  a serem buscados no outro tem mais facilidade de estabelecer uma relação saudável. Faz sentido.  Cria-se uma espécie de senso de seleção, com uma busca direcionada, baseada em critérios. Por vezes, a combinação desejada é rara, Isto exige uma espera longa e sem a certeza de que apareça. E quando aparece, muitas vezes, não se tem os “assins” que a parte alheia procura. E assim vai. Até o dia em que acontece a liga, o encontro, o início de uma história.

E assim, nasce uma relação com alguém assim como se quer. Se não em tudo, mas na maior parte do que se quer. E desta vez, pronto, não tem como estar errado. O senso de seleção estava calibrado, ajustado. As afinidades são totais. Os defeitos praticamente inexistentes. Até que se percebe alguma coisa estranha. E vão surgindo pequenos assados, que vieram escondidos à sombra daqueles “assins” tão vívidos e vistosos. E normalmente, estes  assados que escaparam pelo filtro dos “assins” vão se acumulando e tornando turva a relação cristalina, até que chega o momento em que o casal decide: faz uma nova filtragem em conjunto e segue adiante, omite-se e conforma-se com a sujeira acumulada que tende a proliferar-se ou desmancha a relação e cada um inicia uma nova caminhada em busca de um filtro mais compatível com seus  “assins”, sem a certeza que irá encontrá-lo.

Com o perdão do trocadilho, não acredito que seja assim que funciona. Não acredito na busca ou espera por alguém assim. Claro que todo mundo tem algumas características que admira ou gostaria de ver na pessoa com quem divide a vida. Mas quem almeja uma pessoa com muitos “assins” quase sempre tem mais dificuldade de estabelecer uma relação saudável. Isto acontece porque não se abre às possibilidades que a vida apresenta. Num mundo com tantas variedades de almas, corpos e personalidades, querer alguém assim é ler sempre a mesma notícia, ouvir sempre a mesma música, usar sempre o mesmo caminho ver a reprise do último capítulo da novela, porque quem quer uma pessoa assim vai procurar sempre alguém com os mesmos gostos, jeitos e valores. E assim, ficará sem conhecer novas propostas de vida e de si mesmo e entender que alguém que não é assim pode com seu jeito assado, justamente complementar alguma própria deficiência que se tenha por ser tão assim.

Querer alguém assim é querer programar um envolvimento emocional. É querer marcar na agenda o dia que vai se apaixonar. É dar as  costas ao inesperado. 

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