domingo, 25 de novembro de 2012

"Eu te amo" invisível


De vez em  quando acontece com todo mundo de ser testemunha de uma destas histórias de amor “hollywoodianas”, com pitadas de comédia, entrega à inconseqüência, dramas, dilemas, muitos sorrisos  e é claro, o “eu te amo”. Ontem à noite, presenciei o desfecho matrimonial de uma destas histórias.

Foi um enredo tão atravessado quanto direto. Ele, um brincalhão, consegue o  MSN da menina e passa a chamá-la de  futura namorada nas caixas de diálogo. Ela desdenha. Ele insiste. Ela ridiculariza. Ele não se importa. E assim vai.  Tal um pugilista que vai castigando o baço do adversário ou um exército que usa táticas de guerrilha, ele vai minando as resistências dela lentamente. Todo dia, um bom dia pra futura namorada. E o que era chato foi ficando engraçado. Num dia de frustração dela, o bom dia dele foi um bálsamo de querideza. E a cotação do rapaz dele foi se elevando.

Até que um dia, ela inverteu o jogo.

Quase  matou o rapaz de susto quando ligou no meio da tarde, avisando que estaria o buscaria em casa no início da noite para que conversassem. Foi com o próprio carro para ter o controle da situação. Puseram-se a conversar. Ele falando dos planos que tinha pros dois. Ela ouvindo e achando tão louco quanto interessante. De repente, toca o telefone dele. Era a mãe. Ele não teve dúvida:

- Oi, mãe! Não posso falar agora porque to aqui com a tua futura nora. Linda ela...e tá rindo agora. Já aproveita e fala com ela.

As futuras sogra e nora então conversaram. E a partir dali, foi como se o diálogo tivesse sido a assinatura de um termo de compromisso entre ambos. Ficaram naquela noite. Namoraram nas semanas seguintes, em alguns meses noivaram. E foram morar juntos. Casaram em segredo e comemoraram com os amigos, que foram a uma festa de aniversário surpresa, sem saber que tratava-se de uma festa de casamento.

É o típico enredo de filme, resumido aqui em seis parágrafos. Mas é claro que a história tem muito mais que isto.  A história tem ingredientes nas entrelinhas, que poderiam tirar o tom de poesia da, mas que na verdade, são os temperos que a realidade usa para dar um paladar humano ao que o cinema não mostra.

Ele, um brincalhão exagerado, recém-chegado na cidade dela, sem nenhuma referência, poderia muito bem estar só fazendo uma piada inconsequente ao chamá-la de futura namorada. Poderia já ter feito isto antes.  E ela, por ingenuidade, poderia ter cedido. Por carência ou falta de opção, poderia ter aceito.  Poderia. Assim como poderia ele já ter feito isto antes sem que nenhuma outra tivesse correspondido à altura. Assim como poderia ela nunca ter experimentado uma abordagem do gênero.

Fato é que cada casal é que sabe o que faz a sua história diferente das outras. E a destes meus amigos foi justamente por perceberem o patrimônio simbólico que construíam juntos, que desde o início, falavam eu te amo sem dizer eu te amo. Quando ele ligava do supermercado e perguntava se ela queria presunto ou peito de frango, isto era um eu te amo. Quando ela coloca a cerveja na geladeira à espera dele, isto era um eu te amo. Quando ela esquecia o lanche e ele levava frutas descascadas em potes separados para não misturar o sabor, isto era um eu te amo

Têm mais chance de serem felizes os casais que entendem que o eu te amo não nasce só da boca.

3 comentários:

  1. Muito lindo Cássio!
    Até mesmo o Chico Buarque faria uma música que é uma declaracao de amor e nao diz Eu te amo, mas se chama Eu te amo.

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  2. Os gestos falam muito mais do que mil "eu te amo's"!!

    Andréia Kanitz.

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  3. Engraçado. Preciso das palavras tanto quanto das atitudes.
    E falei sobre isso, no meu blog:

    http://roccana2.blogspot.com.br/2009/05/fome-do-ouvido.html

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