segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Cinquenta tons de sexo


Na condição de quem gosta de livros, foi desanimador. Cinquenta tons de cinza está para a literatura, assim como aqueles filmes das madrugadas de sábado estão para o cinema: o conteúdo erótico sustenta a narrativa sofrível. E levando em conta a natureza biológica de homens e mulheres, em que os estímulos sensoriais são diferentes, os detalhes descritivos do livro fazem à imaginação feminina o mesmo que as imagens da televisão moldam nos pensamentos masculinos.  

E assim como os filmes masculinos serviram de caminho das pedras para muitas mulheres entenderem a ótica masculina de sexualidade, é justo que se é através dos livros que as mulheres querem falar de sexo, os homens adentrem a este universo e tirem dele os valores sexuais que elas querem nos passar.

Contudo, na condição de homem, confesso que foi decepcionante ver algumas mulheres tornarem-se viúvas de Christian Grey, o personagem autoritário, que manipula emocionalmente uma menina ingênua de 21 anos de idade, da qual tira a virgindade e passa a conduzir pelo mundo do sadomasoquismo em troca de presentes como um Imac, um blackberry e um Audi. E também  não deixa de ser confuso a um homem ver algumas mulheres cultivarem como herói um cara que só permite ser tocado pela sua possuída quando ele autoriza, rastreia o telefone e e-mail da "namorada" que controla compulsivamente, diz que não faz amor e só fode com força, estabelece uma relação a partir de um contrato em que ordena o que ela vai comer, com quem vai falar, o que vai vestir e define que o prazer dele é o que importa e o prazer dela estará unicamente na satisfação de dar prazer a ele.

Neste sentido, num prisma masculino, é difícil abstrair a relação entre dinheiro e amor, levando em conta o fato de o personagem ser um bilionário que não cansa de fazer sexo. Excluindo-se os aviões, o helicóptero, os presentes, o tamanho da mansão e a quantidade de funcionários que tornaram possível ao cidadão estar onipresente, fica difícil imaginar o deslumbre da pacata Srta. Steele com o personagem.     

Independente disto, o importante é que a obra deixa um legado. Cinquenta Tons de Cinza é uma espécie de carta de alforria feminina. É um manifesto da metade mulher do mundo endereçado à metade masculina, dizendo que elas querem sim falar de sexo. Mais que isto, querem falar profundamente de sexo. Viúvas ou algozes do Sr. Christian Grey, ao consumirem o livro como se fosse Bigue Méqui, anunciam com neon aos cromossomos Y que ainda não perceberam: assim como todo homem quer uma dama na sociedade e uma vagabunda na cama, toda mulher quer um lorde na sociedade e um tarado entre quatro paredes.

Este homem seria aquele com o instinto do Antônio Banderas dentro do quarto e a sensibilidade do Pablo Neruda fora dele. Ah, e com charme. Até aí nada demais. Acho até que é quase uma lição que já faz parte do abecedário de qualquer homem nos tempos atuais. Porém, o conceito do que é ser tarado ou vagabunda dentro do quarto é algo muito particular. Mas acho que o dilema principal e que o livro aborda está, principalmente, na ideia errada da sociedade de que quem é querido ou querida não pode ser profano ou profana.

Acho que esta leitura atrapalhada se deve principalmente aos seres híbridos que se tornaram homens e mulheres da nossa época. Os lordes que elas desejam e as damas que eles querem na sociedade, além da cumplicidade, carinho, admiração e proteção, educação e respeito, têm muito do comportamento que o sexo oposto carregou durante a evolução. Homens estão mais tolerantes e servis. Mulheres, mais participativas e impositivas.

E como consequência, quando a porta do quarto se fecha e o barulho da chave decreta que é hora de vestir-se de instinto, ambos têm a dificuldade de serem homens e mulheres na essência primitiva, em que elas esperavam a atitude e o controle dele e eles esperavam a submissão dela. E o grande trevo do livro é justamente este: o prazer da submissão feminina ao controle masculino durante o sexo. E quanto a isto, não há sentença. O prazer é individual. Há aquelas que vêem com bons e ótimos olhos. Há aquelas que vêem com repulsa. Assim como há homens que se sentem à vontade se impondo e outros são mais comedidos.

Mas independente disto, com as mulheres com quem conversei sobre o livro, esta questão provocou tanto uma parcela ínfima de repugnação como a vontade de experimentar algo do gênero com o marido, rolo ou namorado, talvez não numa escala tão aprofundada. Ou seja, os dilemas delas eram os mesmos da personagem, que se via dividida entre o amor pelo homem perfeito e ceder aos seus fetiches exóticos em relação ao sexo.  

Independente do que se diga de Cinquenta Tons de Cinza, o livro cumpriu o papel ao qual se propunha: incendiar as discussões sobre o que homens e mulheres esperam do outro dentro e fora de quatro paredes. E talvez o mais real do livro seja o que qualquer casal sabe: que os dilemas e os dramas dos personagens só começam a se dissolver quando ambos conversam e dialogam sobre o que lhes angustia ou dá prazer.           

Um comentário:

  1. Comecei a ler, depois de tanto ouvir falar, mas não consegui chegar nem na metade...
    Narrativa chata, personagens improváveis, cláusulas e burocracia demais para o livro ser interessante, imagina, excitante...

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