segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Instinto de família


Todo esforço vale. Todo esforço compensa. Quem já gastou dinheiro, tempo ou saúde que não tinha para abraçar alguém que a biologia ou o mundo colocou próximo o suficiente para chamar de FAMÍLIA sabe do que eu tô falando.  

Mas se o abraço é possível, a vontade de abraçar já vale. Aliás, quase sempre a vontade de abraçar é maior do que um abraço. E pra matar esta vontade, vale voz, foto, e-mail, a carta, prece ou visita a um túmulo. E isto tudo só acontece porque família não é uma invenção. Família é instinto. Instinto de sobrevivência. Instinto de amar e ser amado. Instinto de proteção. A família é o ferrolho que nos  blinda do mundo capitalista, selvagem, competitivo, injusto e blá, blá, blá.

De certa forma, todo fim de ano é mágico por isto. Revigora e emociona o suficiente para que cada ser humano renove os votos com a própria humanidade. Se foi obra do capitalismo, de algum governo ou religião, tanto faz. O que importa é que as palavras Natal e Reveillon têm o poder de fazer com que cada gene vá de encontro aos seus semelhantes.  

E por ser instinto, família é necessidade. Todo ser humano precisa de uma família. É só reparar. Fim do ano ou não, quem não tem ou não pode ter a família biológica, inventa uma. Corre-se pra junto do “amigo que é um irmão”, “aquela senhora que é uma mãe” ou “aquele senhor que é um pai”. É inevitável. É como se fosse uma vontade inconsciente de estar junto de alguém que se ama para iniciar o ano seguinte com a alma abastecida de afeto.  

E é por isto que acredito também que a rápida e brusca mudança do conceito de família é a principal explicação para o mundo “desencontrado” do nosso tempo. A minha geração, por exemplo, cresceu acreditando que casamento e profissão eram pra sempre. E era através destas duas condições, a estabilidade emocional floresceria naturalmente. Pois da minha infância até hoje, o mundo viu componentes como o crescimento do consumo, a transformação econômica, a evolução feminina, a insolência masculina, a internet e a liberdade sexual redesenharem o conceito de família, que hoje, pode ter um pai e uma mãe, um pai, uma mãe, dois pais, duas mães, dois pais e uma mãe ou um pai e duas ou três mães, como todo mundo achou divertido no caso do Cadinho, na novela Avenida Brasil.

Nem entro no mérito do que é certo ou errado, justo ou injusto, legal ou ilegal, moral ou imoral. Fato é que todos estes modelos de família estão aí. Em prática. E seja como for, com afeto. Muito afeto. Em alguns casos, um afeto muito mais genuíno que o modelo tradicional de família, para compensar a dificuldade de ser diferente do padrão.

Enfim, não sei quais serão as conseqüências de todo este cenário desenhado em pouco mais de duas décadas e que continua em metamorfose. Sinceramente, acho que ninguém sabe o que vem por aí.  
Talvez dentro de cinco ou seis gerações, tenhamos um novo e definitivo formato. 

Independente do que venha a acontecer, não tenho dúvida que o ser humano só terá condições de manter-se humano enquanto sentir-se inserido numa família e, consequentemente, almejar constituir a sua.  Seja para sentir-se protegido, seja para buscar a eternidade através de um filho biológico ou adotado, seja para que a cada fim de ano possa se emocionar em abraçar ou simplesmente cultivar a vontade de abraçar alguém. 

2 comentários:

  1. Perfeito! Teu texto me fez viajar no tempo e perceber quantos destes casais estão presentes na minha vida. E foi um grande prazer identificar estes casais e suas declarações de amor veladas. Parabéns mais uma vez.

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  2. Obrigado, querida! Muito obrigado! Lisonjeado! Bj!

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