terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Quem tem o "dedo podre"


Acho engraçado quando as pessoas dizem que estão sozinhas, isoladas ou sem emprego porque tem “dedo podre”. E é até bem comum. Todo mundo conhece alguém do círculo de amizade, vizinhança, ambiente de trabalho ou família que a cada frustração, confirma sua teoria:

- Viu! Me ferrei de novo! Não adianta! Eu tenho “dedo podre”.   

Algumas pessoas fazem isto porque assumir a condição de “dedo podre” é tão cômodo quanto covarde.  Assume-se uma parcela ínfima da culpa e põe-se o fardo principal às costas do outro. Pra quem tem o “dedo podre”, o único erro próprio é a escolha. Todos os outros, incluindo atos, circunstâncias, intenções, inconseqüências, erros e interpretações partiram da outra parte. Quem tem o “dedo podre” sempre diz que “foi bom pra aprender”, mas nunca aprende e comete os mesmos erros. Quem tem o “dedo podre” vive mais ou menos como naquela piada em que a pessoa percebe a casca de banana e que o tropeço será inevitável.  

Quem tem o “dedo podre” é sempre vítima. Nunca é cúmplice. Quem tem o “dedo podre” sempre tem prejuízo numa relação de amor, amizade ou trabalho. Nunca tem lucro. Quem tem o “dedo podre” sempre é ingênuo. Nunca é omisso. Quem tem o “dedo podre” tem sempre a razão. O mundo todo é que é errado. É quase cacoete de quem tem o “dedo podre” dizer que perdeu ou gastou tempo com quem não devia.

E o mais engraçado é que a cada pessoa com quem fina algum tipo de relação, quem tem o “dedo podre” ganha mais tem certeza de que é maior que o mundo. É como se a vida fosse uma carreira promissora em que cada frustração é uma promoção. E a cada episódio, o dedo fica mais putrefato e contaminado. Quem tem “dedo podre” acredita que tem alma de santo e nasceu pra sofrer.

E é justamente este coitadismo que denuncia a contradição de quem tem o “dedo podre”. Ao mesmo tempo que sofre, desiludido com mais um erro, mais uma escolha equivocada, nesse mundo de pessoas insensíveis e injustas, a autoestima exacerbada de quem tem o “dedo podre” o blinda de qualquer culpa. Quem tem “dedo podre” é um megalomaníaco que se diz com Complexo de Inferioridade.  

Diz que tem “dedo podre” quem tem preguiça de olhar a realidade como ela é e ignorar aqueles sinais óbvios, que ficam estampados como luzes de neon ao longo do caminho. Quem tem o “dedo podre” nunca aprende. Sempre se arrepende.   

Talvez até mereça um estudo mais aprofundado uma particularidade que envolve as pessoas com “dedo podre”. Num mundo com sete bilhões de habitantes, é raríssimo que elas se encontrem ou se relacionem. 

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