segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Casais de referência



A certos casais, o divórcio deveria ser proibido.

Falo daqueles casais que ninguém consegue imaginar separados. Há casais que a gente gosta, respeita, admira. Mas há aqueles em que a gente se espelha. Este tipo de casal não é responsável apenas um pelo outro e pela própria história de amor. Tem também o poder de fazer com que outros casais permaneçam casados, solteiros queiram casar-se, separados tentem novamente e os individualistas pensem, vez que outra, em rever conceitos. É graças a estes casais, cujo divórcio deveria ser proibido, que as letras de algumas canções fazem sentido e a crença na convivência pacífica, amorosa, terna, engraçada, divertida e feliz entre duas pessoas esteja mais perto da realidade do que nos enredos de  comédia romântica.

Lógico que cada casal constitui sua própria linguagem emocional. Os significados de cada ato, gesto ou palavra ganham dimensão e poder conforme cada  um vai aprofundando a leitura e a interpretação da alma que escolheu para acompanhar e se deixar acompanhar pela vida. E como cada história é única, seria muito pretensioso e quase pedante querer traçar um perfil dos casais proibidos de divórcio. Mas quando reparo naqueles que tenho como referência, percebo algumas características em comum, que vão além do trinômio básico da  admiração, respeito e instinto. Dentre tantas, há três que se destacam, na minha visão.   

A primeira delas é que normalmente um casal de referência cultiva de forma equânime seus dois patrimônios: emocional e físico. Para se manterem juntos, abrem mão de uma imensa conquista individual em troca de uma grande conquista em conjunto. No mundo da economia de mercado, do business, das competências múltiplas, ambos alimentam a ambição e o coração em igualdade. Enquanto casais normais usam o patrimônio físico para gerar patrimônio emocional, os casais de referência fazem o caminho inverso. A eles, me parece, é o abstrato que faz o concreto ter sentido. Alcançar um sonho é espetacular. Mas ter com quem compartilhar o alcance de um sonho é realizar o sonho duas vezes.      

A segunda é que a exibição verbal de amor é quase desnecessária. Quem ama, mostra o amor. Só mostra e não o ostenta.  Ostentar amor é não amar. É querer amar e não amar. É tentar comprar o amor do outro. É intimidar o amor do outro a ser explícito. É só reparar nas relações dos casais cujo divórcio deveria ser proibido: os “eu te amo” normalmente são silenciosos, discretos, simbólicos ou emblemáticos. Os casais de referência dizem o “eu te  amo” por instinto, mas demonstram o amor de maneiras diferentes, de acordo com a  maneira que o outro gosta de sentir-se amado: um presente, um fetiche, uma palavra, um gesto, uma surpresa, um jeito de sorrir, de olhar, de tocar, de se comunicar. Tudo vale. É só reparar nos filmes de amor. Não que o virtual não valha, mas o bilhete de eu te amo preso na geladeira, escondido no travesseiro ou no pote café tem muito mais sentido que o EU TE AMO publicado no mural do feicebuque. 

A terceira é de que os casais cujo divórcio deveria ser proibido geralmente não são apaixonados apenas um pelo outro. Eles são apaixonados também pela história que construíram com o outro. E é neste sentido que a realidade dos casais de referência se separa das comédias românticas. Como a empatia é uma característica intrínseca a este tipo de casal, cada um sabe, valoriza e até se orgulha do que fez pelo outro e recebeu do outro. Em partes, é nesta simbologia que os próprios filmes se apegam quando tentam fazer com que as  pessoas chorem ou suspirem, valendo-se da palavra, música, gesto ou lugar que foi marcante para o casal da trama. E os casais que não deveriam se  divorciar sabem disto. Por isto, revisitam seu passado para alimentar o presente e sonhar, planejar e idealizar o futuro. Sim, os casais de referência sabem que só de poesia ninguém vive. Eles sonham e se unem para assassinar as contas que têm pra pagar.

Por estas e outras características que eu só vou acreditar que o amor não existe quando um casal de amigos meus se separar. A este casal de amigos que já passou da fase do namoro, noivado, casamento, filhos e que é da mesma geração que eu, em que proteger a relação do mundo é mais complicado que noutros tempos, eu digo que os proíbo de se divorciarem. Sei que não pensam nisto. Ainda bem que não estão felizes. Eles são felizes.

E que assim seja. Que sigam em sua casa linda e única, num lugar em que o silêncio só é assassinado pelo canto dos pássaros ou pelo beijo delicado que o arroio manso oferece ao barco nos fundos de casa em dias de vento. Talvez esta seja outra característica dos casais que deveriam ser proibidos de se divorciar. Eles criam um mundo à parte, seja real, virtual ou fantasioso para se proteger do mundo. No caso deste casal de amigos, é um mundo real. E literalmente é o mundo de Sofia.       

2 comentários:

  1. Análise perfeita do casal nosso amigo, Cássio. Parabéns! Baita texto. Baita gancho e, claro, baita ensinamento àqueles que crêem, como bem disseste, que o material vem antes do imaterial. Sensacional! Abração, meu velho!

    Bugs primogênito

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  2. Fala, Bugs! Obrigado! Lisonjeado com as palavras! Abs!!!!

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