segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Mercado de solteiros



Pra quem vê o mundo num prisma humanista, é difícil admitir e fácil constatar que as relações entre as pessoas tornaram-se como as de mercado. Compra-se amor, troca-se carinho, financiam-se amizades. É o consumismo exagerado de atenção, afeto e sexo. Coisas de carência. Coisas de individualidade. Coisas da vida. As palavras que seguem podem parecer ofensivas. Deveriam ser. Mas não são. São no máximo uma metáfora superlativa ou retrato exagerado do mundo dos solteiros e inclusive de alguns casados, que não sabem bem a que mundo pertencem.

O mundo dos solteiros é praticamente como o mercado de carros usados. Cada balada é uma revenda, cada bar é uma concessionária, cada rede social é uma página de anúncios. Variáveis humanas e automobilísticas são praticamente as mesmas: estética, sofisticação, desgaste, histórico, número de proprietários, confiabilidade, custo de manutenção, raridade ou mesmo uma primeira impressão num test-drive. 

E cada solteiro é o principal vendedor de si mesmo. Logo, a estratégia de negociação também é particular. Esconder os pequenos detalhes, reconhecer pequenos reparos e avarias, agir com sinceridade ou mesmo omitir graves problemas são algumas das táticas empregadas. Normalmente elas variam de acordo com a urgência de cada um em realizar a transação. Em ambos os mercados(carros e solteiros), referências, pesquisas e uma investigação mais aprofundada são sempre fatores que diminuem a probabilidade de entrar numa furada.

Afinal, quem já não se deparou como aquele modelo de gente ou de carro com aparência linda, bem conservado, praticamente um negócio de ocasião, mas que logo em seguida apresentou sérios problemas? Não ficar na mão ou empenhado já é lucro.  

Talvez a grande explicação esteja no fato de que, assim como nos automóveis, em nós humanos, os defeitos internos também são mais difíceis de serem percebidos ou diagnosticados. E quase sempre são mais graves. Há aqueles simples, detectados numa manutenção preventiva nos carros ou num “a gente precisa conversar” dos casais, assim como também há outros que ficam ali, escondidos por anos, sem que sejam percebidos. Para escondê-los ou compensá-los, a opção é valorizar o exterior das pessoas e dos carros.

Mas sempre chega o dia em que o problema interno, do motor, da parte elétrica, do coração, dos traumas, dos medos estoura. Daí, pronto: a reparação muitas vezes é inviável e a conseqüência inevitável é a busca por outro modelo. Ou então, continuar com o que se tem em mãos, afinal, por fora, tudo tá lindo.    

E talvez não haja semelhança maior entre os carros usados e os solteiros do que os jargões. Basta reparar nas expressões: “há quanto tempo ta aí??? Só pode ter problema”, “lindo, acessível, mas por que ninguém compra?”, “hummm...é de fora”, “até vale tudo isto, mas ninguém paga”,  “modelo  bem bom, mas tá decadente”, “aí é casamento: uma alegria quando compra, mas pra se desfazer...já viu” , “é bom, mas olha a quilometragem. Olha quantos donos(as)”.

É por isto que solteiros optam pela troca de festas, bares, cidades ou então ficar um tempo recluso, sem exposição. Ser solteiro é tão fácil quanto complicado. Sair sempre no mesmo lugar é ser o carro estacionado sempre na mesma vitrine da mesma revenda.

Partindo-se do princípio de que todo bom negócio, assim como todo bom relacionamento, é aquele que é bom para as duas partes, a sinceridade me parece ser um bom caminho, senão o melhor começo para qualquer possibilidade de ajuste entre oferta e demanda, seja no mercado de carros usados....seja no mercado de solteiros. Em primeiro lugar, porque gera confiança entre as partes; em segundo lugar porque é muito fácil fazer qualquer tipo de rastreamento; em terceiro lugar e principalmente, por questão de caráter. 

8 comentários:

  1. Muito bom!!

    ResponderExcluir
  2. Muito bom, seu texto, Cássio. Me fez refletir nas verdades que traz. Concordo que há exagero na exposição das qualidades de cada um, espcialmente nas mídias sociais. Acredito que isso acontece em função do fato de que não há espaço, nos Facebooks da vida, nem na própria vida, onde existimos e somos, de fato, para demonstrações de fraquezas, defeitos...Especialmente na Era Rivotril, na qual as emoções são diluídas; não pode haver sofrimento. Antes do aparecimento das mídias sociais, quando as relações aconteciam na "vida real", podemos tentar lembrar como nos relacionávamos, sem todo esse anteparo que é esse aparato digital. Alguém se lembra dos primeiros encontros com o outro? Éramos totalmente transparentes desde o primeiro momento? O ser humano é susceptível a críticas e ouvi-las dói. Temos a dúvida (ou certeza) de que, com o passar do tempo e aprofundamento das relações, seremos desculpados por nossas fraquezas com benevolência. Isso é bem natural. E talvez a beleza de tudo seja, de fato, sermos surpreendidos e poder aceitar o outro como é, ou simplemente, desfazer os laços. Pois, frustração, embora indejada, faz parte do amudurecimento emocional. Ana Romero

    ResponderExcluir
  3. Excelente análise, Ana Romero!!! É exatamente isto! A palavra é coerência entre o que se sente e o que se faz!!! Bjbj

    ResponderExcluir
  4. Obrigada, Cássio! Amo seus textos. Bjs Ana Romero

    ResponderExcluir