segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O idioma dos olhos


É no idioma dos olhos que tudo começa. É no diálogo das retinas que se decide o teor, a densidade e a dinâmica da conversa que seguirá. E até mesmo se seguirá. Normalmente é assim. As palavras ditas são importantes. Em alguns casos, fundamentais. Mas normalmente são só uma assinatura sonora do que os olhos já anunciaram ou seguem a proclamar em silêncio. É bom ouvir e importante escutar. Mas a voz é só um complemento. A revelação nasce do olhar. A conclusão também.  

É por isto que na balada, na reunião de negócios, no banho de chuva, no almoço de família, no jantar refinado, no jogo de futebol deles, no corte de cabelo dela, na cama com instinto, na cama com sono, na vingança praticada, no perdão concedido, no auxílio oferecido, na ajuda implorada, no abraço apertado, no beijo crepitado, no “eu te amo”, no “a gente precisa conversar”, tudo sempre inicia com o idioma dos olhos.  

Noite destas, numa mesa de bar o assunto do “olhar” entrou em pauta. E com uma amiga psiquiatra à mesa, ficou mais fácil entender a explicação científica para a importância do olhar na vida humana. Ela comentou que um dos motivos desta necessidade de falar com os olhos está nos primeiros momentos de vida. 

Quando ainda não desenvolvemos a fala, foi pelos olhos que iniciamos nossas conversas com o mundo e a busca por ele. E é a partir dali que todo o processo vai se tornando contínuo, respeitando variáveis como tempo e aspectos sociais. Nos olhos da mãe deciframos o que é afeto, nos do pai a proteção, nos dos amigos a lealdade, nos do primeiro amor a cumplicidade, nos do colega de colégio mais forte a covardia e assim por diante.

Talvez esta seja a razão pela qual as pessoas que desenvolvem a habilidade de conversar com os olhos tenham mais facilidade em acessar os atalhos da vida. Em partes, porque geralmente estas trilhas só são oferecidas ou alcançadas através das pessoas. E assim, por lerem nas entrelinhas os sentimentos alheios e gastarem menos tempo e energia na comunicação, as pessoas com fluência no idioma dos olhos geralmente enviam e recebem as mensagens com mais eficiência e precisão.

De uma maneira sutil e silenciosa, com a ajuda de alguns músculos do rosto, expressam amor, ternura, admiração, respeito, medo, coragem, indignação, desprezo, tristeza, euforia, raiva, lamento, desejo, felicidade, alegria, satisfação e dezenas de outros sentimentos sem usar uma palavra. E assim como os exprimem com facilidade, também os decifram. A voz é só acessório. E humanos que somos, é inevitável que esta capacidade de empatia seja um propulsor do processo de cativar e deixar-se cativar.

Em tempos de redes sociais, com relações humanas que se solidificam a partir de verbos como “curtir”, “cutucar”, “seguir”, “compartilhar”, “retuitar”, “comentar”, a linguagem do olhar tende a desaparecer. Não que esteja em extinção. Ainda não. Mas poderá estar. E mesmo que não desapareça, parece inevitável que sofrerá um reposicionamento dentro do processo de interação humana, sendo colocada em segundo ou terceiro plano. Será uma espécie de latim: servirá de referência para o entendimento de cada uma de suas ramificações.

Não tenho medo da tecnologia. Mas tenho receio do futuro. Isto porque em relação à humanidade, o futuro sempre oferece uma amostra grátis no comportamento de crianças e principalmente de adolescentes, que se ajustam ao modelo social que lhes é imposto, para adaptá-lo à sua preferência posteriormente. E quando olho para as crianças e adolescentes de hoje, na companhia de adultos e por influência destes, os vejo decretando decretando com dedos ao teclado e rostos diante dos monitores o desaparecimento do idioma dos olhos.

Talvez porque seja mais fácil ler palavras do que olhos. Talvez porque seja possível manipular o que se fala com os dedos, mas raramente o que se diz com os olhos.   O i

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