segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O nunca mais e o pra sempre


Desde domingo aprendi que todo nunca mais decreta um pra sempre. E vice-versa.  Um sempre é avalista do outro. Um nunca existe sem o outro.  Aprendi também que ambos são semelhantes na forma e significado. Mas antagônicos nos detalhes e na essência.

A lição me veio na televisão, no rádio, na internet e solidificado nos jornais de hoje. Aprendi que o nunca mais e o pra sempre se equivalem pensando quantas vezes o pra sempre e o nunca mais passaram pela minha vida. Algumas eu percebi. Outras não. Dentre as que me foram nítidas, algumas eu fui o indutor. Outras eu fui o induzido. A certeza do aprendizado no domingo nasceu quando comecei a imaginar o que eu faria se estivesse entre aqueles que buscavam um pra sempre numa partícula de ar do banheiro enquanto o nunca mais descia do teto em forma de fumaça negra e tépida.

Há coisas que eu quero que sejam pra sempre. Mas não são. E não serão. Há outras que eu gostaria que nunca mais fossem. Mas são. E serão. Aceitar isto é comodismo ou inteligência?

Hoje eu não sei. Mas esta resposta não é pra sempre.

Desde domingo, fico tentando imaginar quantos pra sempre foram transformados pelos 240 corações que nunca mais vão viver,  quantos nunca mais foram modificados pelo incêndio que vai durar pra sempre. A contagem inicia por Santa Maria que nunca mais será a mesma ou pela mãe que vai ficar pra sempre sonhando com o que ouviria do filho caso ele atendesse o telefone numa das 104 vezes que ela digitou os oito números na esperança de que ele ainda não fosse um cadáver.

O nunca mais e o pra sempre são invenções do ser humano. São as ferramentas de linguagem que nós desenvolvemos para suprir a necessidade de aprisionar a eternidade e fazer com que ela caiba dentro da realidade. “Vou te amar pra sempre”, “Nunca mais olha pra mim”, “Será que isto vai durar pra sempre?”, “Isto não acaba nunca mais?” são só alguns dos exemplos do infinito que ajustamos até que caiba dentro da nossa dimensão, do nosso coração ou da nossa alma. O pra sempre e o nunca mais são obra da nossa condição, da nossa existência, da nossa consciência de finitude. É uma das características que nos diferencia de todos os outros animais.

E cada vez que perto de nós um nunca mais transforma-se num pra sempre, ou o contrário, percebemos que não existe vida individual, que ninguém se basta, que ninguém vive para si, que tudo se interliga. Vizinho, amigo, parente, parente do vizinho, amigo do vizinho do parente. Muitas vezes, não precisa nem isto. Cada alternância entre um pra sempre e um nunca mais é definitiva. É pra sempre. É pra nunca mais ser modificada. E por isto gera uma nova sensação de eternidade, que provoca sempre dezenas de outras eternidades individuais e assim por diante. É viral. É exponencial.

E quando 240 nunca mais são transformados em pra sempre de uma só vez, não há como aceitar sem trauma. Apenas nos resignamos. E aprendemos a conviver com a mudança, com as novas eternidades que nos chegam de todos os lados. Pelo que percebo, dentre todos os tipos de mudança entre o pra sempre e o nunca mais, lógico que aquelas que envolvem crianças, jovens e adultos são as mais traumáticas, como já escrevi aqui noutro texto.

Mas diante da tragédia de Santa Maria, percebi que uma característica torna sempre a transformação do nunca mais em pra sempre, ou vice-versa, mais dolorida do que se  pode esperar ou suportar.  Falo daqueles fatos em que a vida, o mundo ou alguém não nos permite o ritual da despedida.  

Como todo ritual, a despedida cumpre uma espécie de marco. É a oportunidade de ficar transitar por uma ínfima quantidade de tempo entre o presente e o futuro. Entre o que é e nunca mais será e o que ainda não é e passará a ser pra sempre. É por isto, que desde ontem fiquei pensando que se eu pudesse escolher um poder na vida, talvez um deles fosse o de me despedir.

Penso isto porque dentre as dezenas de milhares de pessoas que passam por nossa vida, convivemos com milhares, nos identificamos com centenas, gostamos de dezenas. Mas amamos poucas. Pouquíssimas. Dentre destas que amamos, com todos os tipos de amores que dispomos, muitas vezes pensamos qual delas amamos mais. Acho que agora eu sei que a despedida é uma maneira de medir o amor. Quanto mais dolorida, maior é o amor. Quanto maior o vazio da tristeza, maior é o amor.

Desde domingo, aprendi que a dimensão real do amor se tem quando o amor fica situado entre o nunca mais e o pra sempre. Se você estivesse diante do nunca mais, qual a voz que gostaria de ouvir até que sua vida deixasse de ser pra sempre? 

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