segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Amores não vividos


Casada. Não ama o marido. Só mantém a relação pelos dois filhos pequenos. Tem profissão, mas não é profissional. Só ocupa um emprego. A admiração pelo homem que escolheu acabou em algum lugar ou momento que ela não lembra. Hoje, a única certeza que tem é que se abduziu da condição de fêmea para ser mãe. O sexo é obrigação. O orgasmo é uma lembrança. É feliz na felicidade dos filhos. Mas não na própria felicidade. Além das crianças, tem outro orgulho: nunca traiu o marido.   

Mas de uns tempos pra cá tem sentido a porção mulher efervescer. E a feminilidade trouxe consigo a iminência do adultério. Sabe que é questão de tempo. Ela é bonita, balzaquiana e, acima de tudo, é uma mulher que não desaprendeu a amar. Só trocou o objeto do amor. Ela não sabe se é um amor verdadeiro. Só sabe que é um amor. Amor que não tem pelo marido. Um marido que deixou de ser marido para ser apenas o pai dos filhos. Um marido a quem ela empresa o corpo pensando no amor que mantém preso a pedaços de papel caprichosamente guardados e escondidos numa caixa de sapatos, camuflados entre os certificados da faculdade e provas da faculdade.

Ela não sabe o que fazer com este amor que sempre esteve preso. E agora faz motim. Ela sabe que as 
palavras guardadas na caixa de sapato são o mapa do adultério. No início eram só uma fuga para o tédio. Em seguida, uma lembrança doce, uma lembrança doce de uma escolha, uma lembrança doce de uma escolha difícil, uma lembrança doce de uma escolha amarga e enfim, uma lembrança doce de uma escolha errada. Ela tem certeza que errou.  Errou porque, segundo ela, foi induzida ao erro pela vida.

Era época de faculdade. Ela era noiva. Ele, um colega. A admiração, mútua. A empatia, imediata. Falavam com a boca e conversavam com os olhos. Sempre. Todos os dias. No pensamento de ambos, beijaram-se, deram-se as mãos, fizeram loucuras entre quatro paredes, acordaram abraçados, viajaram a Paris, viram o pôr-do-sol na Polinésia e tiveram filhos. Na realidade, nunca houve nada. Sequer um beijo. Ele se declarou. Mandava e-mails. Ela só respondia pessoalmente. Não queria deixar rastro. Até que um dia ela disse não. Não podia. Seria muita inconsequência terminar o noivado com um homem apaixonado por ela, que morava na cidade dela, que já convivia com a família dela, para viver um amor de faculdade, que à época ela nem sabia se era amor. Quem garantiria que não seria só uma destas paixões que falecem sem nascer?  

Pois agora, dezesseis anos, um casamento e dois filhos depois, ela descobriu que era amor. Que é amor. E que será amor até que ela morra. E é por isto que ela decidiu que o adultério será com ele. Se ele quiser. Ela está disposta a viajar centenas de quilômetros para ter algumas horas com ele. Quer  ver, tocar, ouvir e sentir o amor que abriu mão.

Este é o grande mal dos amores não vividos. Normalmente, não são amores. São só miragem. Toda saudade do que não se viveu é idealização. É hipótese. É teoria. É uma válvula de escape para justificar uma realidade indesejada. E como qualquer coisa é o dobro para quem não tem nada, uma aventura, um sopro de possibilidade de voltar a ser mulher já é um alento. Esta é uma história dela. Mas poderia ser dele, o ex-colega. Poderia ser dele, o marido dela.

De certa forma, todo amor não vivido é uma espécie de caderneta de poupança sentimental, que assim como no mundo financeiro, serve de reserva, de garantia. O saque do dinheiro ou a necessidade de viver o amor não vivido só acontece em caso de emergência. É só pensar no que acontece quando as pessoas saem de um relacionamento. O instinto remete imediatamente a um amor não vivido ou amores não vividos.

Rara é a pessoa que não tenha um amor não vivido.  Assim como é rara a pessoa que percebe que o amor não vivido aparece sempre num momento em que não se consegue amar a si.    

2 comentários:

  1. A infelicidade, leia-se, falta de amor próprio nos faz lembrar o quanto éramos felizes e não sabíamos, dos amores vividos ou não, da época em que algum momento fomos felizes, grande engano. O passado não volta, os momentos não voltam e somente a boa lembrança congela. O ser humano sempre acha q se a escolha fosse outra tudo poderia ser diferente e foi. O problema é a eterna insatisfação e o pensar: Onde foi que eu errei. Gastamos muito tempo querendo voltar atrás ao invés de usar a energia para fazer o melhor hoje.

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  2. Um amor não vivido no qual ambos queriam mas não acnteceu (por vários motivos) ficará sim durante toda essa vida no coração. Vc acha que no futuro as coisas podem se resolver (mas nem sempre se resolvem, o destino te pega uma peça) e surgeoutro amor,mas o antigo não morre fica apenas escondido, adormecido e as vezes surge uma dor e pior ainda o seu subconsciente te trai e vc sonha com a pessoa. Esse amor nunca foi totalmente apagado, erro seu achar que é uma caderneta e só se lembra quando quer. O problema é que vc se lembra sem querer.

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