segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Fim de relacionamento


Não é fácil ir embora. Não é simples aceitar que o que era amor ou um gostar gigante tornou-se um bem-querer. É difícil dizer e ouvir adeus. Há quem nem cultive borboletas no estômago com medo de um dia ter que dizer ou escutar um adeus. Entre causas e consequências, ficam o fatos, as fotos, as lembranças e as malas feitas.  
  
Todo fim de relacionamento é, inevitavelmente, uma espécie de aposta. Escolhe-se entre a certeza e a possibilidade. Troca-se o que se tem pelo que se almeja. É questão de busca, mas principalmente é uma questão de coragem. Quase sempre, o término de uma história de amor exige mais ousadia do que foi preciso para iniciá-la.

Numa metáfora simples, um relacionamento que não nos satisfaz é como estar num oásis onde só há água suja para beber. Assim, se aceita a sujeira da água ou o encara-se o deserto em busca de uma fonte mais limpa. O preço da escolha é a incerteza. Não há nenhuma garantia que exista água mais limpa. Pode-se apenas encontrar água mais suja. Pode-se sequer encontrar água. O risco de morrer de sede, neste caso, equivale ao risco de morrer sem amor.  

De certa forma, tudo que se quer num relacionamento é uma redoma de estabilidade. A gente sabe que gosta de alguém de verdade quando o coração quer deixar de ser nômade para instalar-se num corpo e uma alma onde o afeto, o instinto e a admiração sintam-se confortáveis, protegidos e alimentados. As necessidades do corpo são as mesmas da alma. Não pelo número de fatores, mas pela quantidade de variáveis, esta equação não é tão simples. Intimidade, sexo, amizade, respeito, dedicação, abstração, tolerância, empatia, exposição e cumplicidade são só alguns dos agentes que influenciam diretamente na vontade de um coração de querer tornar-se um ermitão instalado na alma alheia ou voltar a ser nômade.    

É por isto nenhum relacionamento termina quando acaba. O fim é só um protocolo.

Antes de partir, todo amor se sente desprotegido, incomodado ou faminto. Alguns por abandono. Outros, por omissão. Há amores que morrem de fome, mas por vergonha ou orgulho não se manifestam. Há amores que não abrem mão do clima de intimidade, mas não se revelam. Há amores que carecem de mais espaço e instalam-se em corações claustrofóbicos.    

Da mesma forma, antes de pedir que seu hóspede se retire, todo coração oferece avisos, coloca cartazes e pede a colaboração. A escolha é do amor em ajustar-se ou não às normas sugeridas. Raro é o amor que é despejado sem receber prévios avisos. Podem não ter sido explícitos, mas notificações foram enviadas.

Quando me perguntam porque certos casais ficam juntos diante de certas aberrações sentimentais, mesmo que não compreenda, tento respeitar.E de certa forma até admiro a vontade de ficarem juntos. Só quem já  esteve numa relação sabe que é só cada casal e mais ninguém que compreende as próprias normas, os prazeres e desprazeres de ser hóspede ou hospedeiro um do outro. Os relacionamentos alheios são como os hotéis da nossa própria cidade. Nós conhecemos,ouvimos falar dos serviços, nos deixamos levar pelas aparências, mas não sabemos de fato a qualidade do serviço que oferecem nem quem são os hóspedes ali instalados.  

10 comentários:

  1. É tão triste, a separação...
    Mas nunca deixo de amar. Só mudo o jeito.

    ResponderExcluir
  2. Muito bom, Cássio. Aliás, elogiar o teu texto é redundância. Abraço!

    ResponderExcluir
  3. Muito bonito texto Cássio!
    O fim de relacionamento é realmente algo muito difícil. É fruto de uma idéia que já deveria de estar madurando há tempos, como você escreveu, o fim é só um protocolo.
    Gostei muito da metáfora do oásis. Muito legal mesmo!
    Ainda mais difícil é quando um dos dois nao percebe os sinais do fim. E aí como diria Neruda: "es tan corto el amor y tan largo el olvido".
    Abracos!

    ResponderExcluir
  4. Muito obrigado a todos pelas palavras! Isto só motiva! Bj grande a todos! Que assim continuem a amar e sendo amados de um jeito que o amor transborde o coração!!!!

    ResponderExcluir
  5. Perfeito!!! Parabéns pelo teu trabalho!! Continue sempre no proporcionando estes momentos de reflexão.
    abraço

    ResponderExcluir