terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Sobre a culpa


Quando um relacionamento termina, um acidente de carro acontece, a luz fica ligada, uma criança se machuca, acaba a água, o corte de cabelo não agrada, a comida não apetece ou morrem mais de 230 pessoas numa festa, é normal que se pergunte: de quem é a culpa?

É normal porque culpar é a ânsia do ser humano em ser Deus. É absolver. É condenar. Se não posso condenar-te à prisão, posso à culpa. E que esta culpa seja uma prisão sem muros na forma de um trauma. Que esta culpa seja uma bola de arrasto invisível na forma de uma lembrança desgostosa. Quase toda culpa é uma condenação perpétua. Porque fica ali, registrada, nos autos da memória. Que sejas tu. Que seja eu. Mas que seja alguém. Quando algo errado acontece, acontece por culpa de alguém. Ou de algo relacionado a alguém.

Em relação à culpa, o papo é reto. É ou não é. Tem ou não tem. Se não é, quem é? Se não tem, quem tem? Mais ou menos culpado não existe.

Eu não tenho as culpas que me imputam e não reconheço. E carrego outras das quais me indultam. É que a culpa, fora do âmbito judicial e no dentro do espectro moral, tem disto: é tão exata quanto relativa. É atribuída, mas não precisa ser aceita. A condenação é pessoal. A absolvição, idem.

Em resumo, a culpa é uma ferramenta criada pelo ser humano para criar um senso de justiça e alívio.  Penso, logo existo. Culpo, logo explico. Explicar e entender são necessidades humanas. E é a partir disto que a culpa tem duas missões principais e distintas. A missão mais nobre é gerar um reparo diante de algo indevido, injusto, errado. A missão mais pobre é representar a condenação errada, injusta e indevida sem realizar nenhum reparo.

Culpar por culpar é agredir. Culpar por culpar é covardia.

Só quem já carregou uma culpa que não era sua sabe que a culpa pode ser muito mais dolorida do que uma agressão física. Não pela intensidade, mas pela constância. Feridas internas não aceitam pomadas nem curativos.  Feridas internas só aceitam palavras, desculpas e perdões e...o tempo. E mesmo assim, depois de curadas, as chagas da culpa, quando muito graves, quase sempre deixam cicatrizes, limitações.  

No mundo politicamente correto do nosso tempo, em que tudo é ofensivo e pouca coisa é permitida, a culpa encontra terreno fácil para proliferar-se. A agressão física doutros tempos não tem mais espaço no nosso grau de evolução. Então, o que fazemos com o nosso instinto primitivo de agressividade, de ataque?  O canalizamos nas palavras. E a culpa é a maneira mais fácil de agredir.   

É por isto que quando um relacionamento termina, um acidente de carro acontece, a luz fica ligada, uma criança se machuca, acaba a água, o corte de cabelo não agrada, a comida não apetece ou morrem mais de 230 pessoas numa festa, é normal que se pergunte: de quem é a culpa?
Tanto faz. Mas que alguém tenha. Afinal, quem não, diante da tragédia, disse:

- Pra mim, a culpa é...

2 comentários:

  1. É...
    Se a culpa é "minha", ponho em quem quiser...

    ResponderExcluir
  2. Rsrsrs...não deixa de ser um ponto de vista!!!! Bjbj!

    ResponderExcluir