segunda-feira, 8 de abril de 2013

Vontade ridícula


Não era um sonho. Era só uma vontade grande. Tão grande quanto ridícula. Tão ridícula, que parecia só um desejo. Azar. Ninguém tinha nada a ver com isto. Era uma vontade dela.  Uma vontade que ela só descobriu ser imensa quando aconteceu. Vontade que de tão brega, tinha até vergonha. Vontade que de tão íntima, não merecera o ouvido de nenhuma amiga. Era uma vontade dela. Só dela.  

E agora estava ela, ali, parada, diante da vontade realizada. Ela, sozinha, sem testemunhas. Só o sorriso e o brilho nos olhos por companhia.  E a vontade, claro, desfalecida, se despedindo do mundo.  Eis uma vontade que renasceria momentos depois com o nome de saudade. Saudade daqueles poucos segundos, que valeram seus trinta e tantos anos de espera. Sempre imaginava como seria, caso acontecesse. Com quem seria, caso acontecesse. Onde seria, caso acontecesse.  

Era uma vontade que ela fazia questão cultivar. Talvez pra mentir pra si mesma que ainda era menina.  Talvez para fingir que ainda tinha o romantismo que foi perdendo nos relacionamentos traumáticos ou nas bocas dos cafajestes que degustara pela vida. Enfim, era uma vontade tão ridícula quanto pequena, quanto infantil, quanto brega, quanto melosa, quanto distante da realidade dela. Tão distante que por vezes até esquecia que a tinha. Lembrava lá de vez em quando, quando via um casal de mãos dadas conversando com os olhos.

Ela, que na condição de mulher já usara aliança, disse e ouviu “eu te amo”, recebe flores, cantadas, ofertas tentadoras e promíscuas, foi feliz como poucas vezes fora na vida naquela manhã em que acordou e viu sua vontade grande saciada naquele pedaço de papel toscamente rasgado, preso na geladeira, com letras rabiscadas em tinta azul. Olhou de novo e não era uma lista de supermercado. Tudo bem, não falava de amor. Mas falava de saudade, praticamente um sinônimo de amor. 

Ela sabia que ele fizera aquilo por vergonha ou por covardia. Mas o importante é que fizera. Ele nunca dissera a ela o que escreveu no bilhete e talvez nunca dirá. Mas isto é o que menos importa. O que importa é que a partir daquele instante, ela descobriu a sensação de acordar e saber que alguém deixou um pedaço do coração preso na porta da geladeira para se fazer presente. 

Foi mais bonito do que ela imaginara que fosse. Foi mais marcante do que ela imaginara que fosse. E foi mais simples do que imaginara que fosse, quando um bilhete preso na geladeira era só uma vontade grande, que de tão ridícula parecia só um desejo. 

Mas isto fora noutro tempo, antes de ela acordar e ir até a cozinha beber água e entender que a simplicidade é a linguagem preferida do coração.    

2 comentários:

  1. Acabei de me ver, exatamente desta forma, surpresa e feliz..."eu juro, juradinho..."

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  2. Nada mais justo à fonte do texto...rsrsrs!!! Bjbj!!!

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