segunda-feira, 27 de maio de 2013

O mural do Feicebuque

Churrasco da turma. Lá pelas tantas, um dos solteiros vira assunto porque teimava em renegar uma linda pretendente do Feicebuque. O affair virtual ficara público, de tanto a moça curtir ou comentar cada postagem do meu amigo. Qualquer post sobre política, futebol, sexo ou inflação na Estônia lá estava o nome da dita cuja. 
  
E assim foi até que a relação virtual dele se tornou a piada da vez entre os amigos. A falta de atitude era uma afronta. Afinal, a moça tinha muitos predicados. E de tantas brincadeiras, gargalhadas e acusações, naquele churrasco ele resolveu se defender. Timidamente, como sempre faz, pediu a palavra. Apresentou sua tese. A teoria era tão esdrúxula quanto emblemática.

Com a fala espaçada, o meu amigo explicou que havia desistido dela porque a timeline da dita cuja era uma apoteose de autoestima na sexta-feira e um prenúncio de purgatório na segunda-feira.. “Na sexta-feira, é só foto produzida, dizendo que vai se permitir. Na segunda-feira, só autoajuda e indireta falando que homem não presta, que as pessoas precisam se valorizar, que ela vai encontrar um homem que mereça ela e coisa e fica a dica pra cá e pronto falei pra lá. Já pensou no tamanho da incomodação? É ficar com uma destas e fechar a porta pra mais duzentas”, disse ele, mais ou menos com estas palavras.

Ninguém mais ria. O churrasco já se tornara uma palestra. Ele continuou por mais alguns minutos. Ninguém contestou. No final, ele estava absolvido. As piadas cessaram.

Em seguida, a palestra virou um debate. O amigo teórico era o mediador diante de réplicas, tréplicas, comentários e hipóteses complementares sobre redes sociais, o que postar, o que não postar, mulheres, privacidade, intimidade, gente bem resolvida, mal resolvida, solteirice, namoro, casamento, baladas, sites de fotos e uma enxurrada de outros assuntos que dividiam espaço com a carne e a cerveja.

Eu fui um dos que concordei com o meu amigo. Concordei, porque a teoria dele, óbvio, não obedece gênero. Não se trata de homens que não querem mulheres que tenham personalidade. Foi só um exemplo. Acredito que em conversas femininas, haja teorias equivalentes ou semelhantes.

Todo este contexto faz parte do preço que as pessoas com mais de 25 anos pagam por viver em uma era de transição entre o real e o virtual. Nós crescemos conversando olho no olho, ouvindo a voz, identificando os timbres de empolgação, ironia, tristeza. Agora, nossos dedos é que falam por nós. A webcam está ali, mas poucos ligam. Dá vergonha. O monitor equivale a um escudo.

Por mais que seja estranho pensar ou difícil de aceitar, o fato é que na última década todos nós passamos a ter duas vidas: a real, que as pessoas de nossa época já conhecem bem e a virtual, que nos tem como cobaias. E nesse novo mundo, ao que me parece, se dá melhor quem soma as duas vidas, agindo com coerência entre o real e o virtual. Do contrário, em vez de duas vidas, não se tem nenhuma delas. São só duas metades. 

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